Quando se fala em integração dos transportes públicos, a discussão concentra-se frequentemente no cartão que o passageiro leva no bolso. A ambição de criar um “cartão único” é fácil de compreender e comunicar, mas pode ocultar uma questão tecnologicamente mais importante: para integrar verdadeiramente redes, operadores e tarifários, o elemento decisivo poderá não ser o cartão comum, mas a existência de uma infraestrutura comum capaz de reconhecer contas, interpretar viagens e aplicar regras tarifárias entre sistemas diferentes.
É aqui que o Account Based Ticketing assume uma dimensão que ultrapassa a simples modernização da cobrança. Ao separar a identificação do passageiro do título armazenado num determinado cartão, o ABT cria condições para que diferentes suportes acedam a uma infraestrutura comum. Um cartão próprio de uma região, uma aplicação, um identificador móvel ou um cartão bancário podem, em diferentes configurações, desencadear processos de validação tratados centralmente.
Esta arquitetura é especialmente relevante quando existem vários operadores e autoridades de transportes. Num sistema tradicional, a interoperabilidade pode exigir compatibilizar cartões, modelos de dados, validadores e produtos tarifários desenvolvidos originalmente para ecossistemas diferentes. Num ambiente account-based, parte dessa complexidade pode ser transferida para interfaces e serviços centrais capazes de reconhecer os acontecimentos de viagem e encaminhá-los para as regras e processos adequados.
Isso não significa que o problema desapareça. Pelo contrário, muda de natureza. Passam a ser essenciais regras comuns sobre identificação, segurança, interfaces de programação, tratamento das viagens, tarifários, repartição de receitas, inspeção, pagamentos, atendimento ao cliente e responsabilidade por erros. A interoperabilidade deixa assim de ser apenas tecnológica e passa a ser também institucional.
Os Países Baixos oferecem um exemplo particularmente interessante pela escala territorial. O OVpay está progressivamente a substituir o OV-chipkaart e permite viajar de comboio, autocarro, elétrico e metro através do país utilizando a nova OV-pas ou cartões bancários. A mudança mostra como a evolução da bilhética pode ser encarada como infraestrutura nacional e não apenas como um projeto isolado de determinado operador ou cidade.
A Escócia está igualmente a estudar uma trajetória nacional. O relatório de 2025 do National Smart Ticketing Advisory Board, publicado pela Transport Scotland em fevereiro de 2026, propõe um caminho faseado para um sistema multimodal de Account Based Ticketing de âmbito nacional. O documento aborda conjuntamente normas técnicas, infraestrutura de dados, acessibilidade, governação e contratação pública, reconhecendo que a criação de uma arquitetura comum exige muito mais do que instalar novos validadores.
Esta perspetiva é particularmente relevante para Portugal. O projeto 1Bilhete.pt foi concebido precisamente para promover a uniformização e interoperabilidade entre sistemas de bilhética e prevê três componentes: bilhética clássica closed-loop, bilhética móvel e bilhética aberta através de cartões bancários contactless. A documentação oficial do projeto vai mais longe e prevê que a arquitetura APEX seja complementada por uma componente de Account Based Ticketing, a desenhar e documentar como especificação nacional para os transportes públicos.
A relevância estratégica desta opção é significativa. Em vez de obrigar todo o país a adotar imediatamente um único cartão, tecnologia ou fornecedor, uma arquitetura comum pode permitir que diferentes sistemas evoluam progressivamente mantendo elementos próprios. O passageiro poderá continuar a utilizar determinados suportes regionais ao mesmo tempo que cresce a possibilidade de viajar através de redes diferentes com meios de identificação interoperáveis.
O próprio 1Bilhete.pt apresenta como objetivo futuro a utilização de qualquer cartão de transporte ou aplicação móvel para adquirir e validar títulos noutros sistemas, bem como a possibilidade de utilização de cartões bancários físicos ou virtuais. Refere ainda a criação de títulos de âmbito nacional e a possibilidade de atribuir benefícios através de uma conta unificada. São características que aproximam o problema português da discussão internacional em torno do ABT, mesmo que a configuração final possa combinar várias tecnologias.
O desafio estará provavelmente menos em demonstrar que as tecnologias necessárias existem e mais em definir a arquitetura institucional que lhes permita funcionar. Quem administra uma conta nacional? Quem determina quais os dados que circulam entre sistemas? Como se processa a repartição de receitas numa viagem que utiliza vários operadores? Como são reconhecidas reduções sociais ou passes locais fora da região onde foram emitidos? Quem assume o atendimento quando uma viagem envolve três sistemas distintos? E até que ponto cada autoridade mantém autonomia sobre o seu tarifário?
A UITP recomenda precisamente que projetos desta natureza comecem por definir a visão estratégica e o modelo funcional antes da escolha das tecnologias e fornecedores. A organização chama a atenção para os impactos sobre processos internos, equipamentos existentes, atendimento ao cliente, gestão de risco, pagamentos e modelos de negócio. Open-loop e ABT raramente são implementados como soluções isoladas; normalmente têm de coexistir e integrar-se com sistemas já instalados.
Há também uma questão de contratação pública e independência tecnológica. Uma infraestrutura nacional que venha a suportar dezenas de autoridades e operadores terá um horizonte de vida muito superior ao de muitos componentes tecnológicos utilizados atualmente. Arquiteturas modulares, interfaces documentadas e normas abertas tornam-se por isso relevantes para permitir a substituição gradual de componentes e reduzir a dependência de um único fornecedor.
O Account Based Ticketing pode, neste contexto, ser menos visível para o passageiro do que o cartão ou aplicação que este utiliza todos os dias, mas bastante mais importante para a integração do sistema. O objetivo final não é que todos tenham o mesmo cartão. É que o sistema consiga reconhecer o direito de viajar independentemente do suporte utilizado, aplicar corretamente o tarifário e repartir informação e receitas entre as entidades envolvidas.
Para Portugal, essa distinção poderá ser fundamental. Se a interoperabilidade nacional for construída sobretudo ao nível da arquitetura, dos dados e das regras de negócio, o 1Bilhete.pt poderá funcionar como uma camada comum à qual os sistemas regionais se ligam progressivamente. O resultado seria uma integração que não depende necessariamente da substituição imediata dos sistemas existentes e que deixa aberta a evolução futura para open-loop, fare capping, títulos nacionais e outros serviços de mobilidade.
Fonte principal: Instituto da Mobilidade e dos Transportes / 1Bilhete.pt. Documentação institucional e FAQ da iniciativa 1Bilhete.pt, Portugal.