Medir um sistema de transportes não é o mesmo que compreender o seu desempenho. Número de passageiros, extensão da rede ou dimensão da frota dizem muito pouco quando analisados isoladamente. Para comparar cidades é necessário relacionar oferta, procura, população, custos, acessibilidade, tecnologia e características territoriais através de indicadores construídos de forma consistente.
A UITP acaba de atualizar os seus Global Urban Mobility Indicators, reunindo informação de 53 grandes cidades de diferentes continentes. O conjunto permite observar redes ferroviárias, metros, elétricos, BRT, autocarros, transporte a pedido, teleféricos e outros elementos dos sistemas urbanos. Entre os resultados destacados está a expansão dos autocarros elétricos e dos metros automáticos, existindo já 17 cidades da amostra com linhas de metro automatizadas.
Os dados também mostram a recuperação da procura depois da forte quebra provocada pela pandemia. Em 2024, o número de passageiros dos metros analisados correspondia a cerca de 95% do nível de 2019, enquanto os sistemas de metro ligeiro e elétrico atingiam aproximadamente 94%. A leitura mais interessante, contudo, não resulta apenas desses valores agregados, mas das diferenças entre cidades.
Uma rede extensa pode apresentar pouca cobertura se servir uma população muito grande. Uma tarifa aparentemente elevada pode revelar-se diferente quando corrigida pelo poder de compra. Uma frota numerosa não significa necessariamente boa frequência e um grande número de passageiros pode resultar tanto de uma rede muito competitiva como da dimensão da população servida. O benchmarking exige, por isso, indicadores normalizados e uma compreensão cuidadosa do que cada variável mede.
Esta lógica está também a entrar formalmente na política europeia. A Comissão Europeia aprovou em julho um conjunto harmonizado de indicadores de mobilidade urbana associado à revisão da Rede Transeuropeia de Transportes. Sustentabilidade, segurança e acessibilidade passarão a ser avaliadas segundo metodologias comuns, permitindo comparar a evolução dos nós urbanos europeus e acompanhar de forma mais consistente as políticas aplicadas.
Para Portugal, esta evolução reforça a importância da monitorização dos Planos de Mobilidade Urbana Sustentável. Contagens de tráfego, validações de transporte público, velocidades comerciais, repartição modal, emissões, acessibilidade ou sinistralidade não devem constituir bases de dados independentes. A verdadeira utilidade surge quando esses dados são integrados num sistema regular de indicadores capaz de mostrar se as medidas executadas estão efetivamente a alterar o funcionamento da mobilidade.