Ensinar a pedalar é também fazer política de mobilidade

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Construir ciclovias é apenas uma parte de uma política de mobilidade ciclável. Para que uma bicicleta possa funcionar como verdadeiro modo de transporte é igualmente necessário que as pessoas saibam utilizá-la, se sintam seguras no espaço público e adquiram autonomia para interpretar situações de circulação. Essa aprendizagem pode começar muito antes da idade adulta.

Águeda iniciou esta semana uma nova edição do programa “Bicicleta vai à Escola”, dirigido a todos os alunos do 3.º ano do ensino básico do concelho. Mais de 450 crianças deverão participar durante o atual ano letivo. O projeto, que vai na sexta edição, combina aprendizagem da utilização da bicicleta, regras de circulação, segurança rodoviária, atividade física e sensibilização ambiental.

A iniciativa é particularmente relevante porque aborda uma dimensão do planeamento da mobilidade que nem sempre é tratada como infraestrutura: a formação de competências. Saber arrancar e travar, sinalizar uma mudança de direção, observar o tráfego, interpretar sinais ou manter uma trajetória previsível são capacidades que influenciam diretamente a possibilidade de uma criança se deslocar de forma progressivamente autónoma.

Mas a formação não resolve, sozinha, o problema da mobilidade escolar. A autonomia adquirida dentro da escola precisa de encontrar condições adequadas no exterior. Percursos pedonais contínuos, velocidades reduzidas, atravessamentos seguros, redes cicláveis conectadas e ambientes escolares com menor presença automóvel são componentes complementares. A experiência europeia com as chamadas “ruas escolares” mostra precisamente a importância de tratar em conjunto comportamento, desenho urbano e gestão da circulação.

Há ainda um efeito menos imediato. Os padrões de deslocação adquiridos durante a infância ajudam a construir a perceção sobre quais os modos considerados normais ou possíveis. Uma criança que nunca circula a pé ou de bicicleta no quotidiano terá maior dificuldade em encarar esses modos como alternativas quando ganhar autonomia. A educação para a mobilidade funciona, por isso, também como política de longo prazo.

Águeda tem alguma continuidade nesta matéria. O programa começou no ano letivo de 2021/2022 e já envolveu mais de 1.980 alunos, devendo ultrapassar as 2.400 crianças com a edição atual. Mais importante do que uma ação isolada será precisamente essa continuidade, articulando educação, infraestrutura e segurança. Uma política ciclável torna-se mais eficaz quando cria simultaneamente lugares onde é possível pedalar e pessoas capazes e disponíveis para os utilizar.