Planear uma viagem combinando comboio, autocarro, transporte urbano e outros modos é tecnicamente cada vez mais simples, mas comprá-la como uma única viagem continua a ser muito mais difícil. A diferença entre informação multimodal e verdadeira integração comercial tornou-se um dos principais obstáculos à construção de um sistema europeu de transportes mais integrado.
O Comité Económico e Social Europeu adotou em 24 de setembro o seu parecer sobre a proposta europeia relativa aos Multimodal Digital Mobility Services, ou MDMS, integrada no Passenger Package apresentado pela Comissão Europeia. O objetivo é criar condições para que plataformas digitais possam combinar pesquisa, comparação, reserva e pagamento de viagens realizadas por diferentes operadores e modos de transporte. O Comité considera a proposta um avanço, mas identifica uma limitação fundamental: continua a existir uma oferta reduzida de viagens multimodais que possam efetivamente ser adquiridas através de um único bilhete.
Esta distinção é essencial. Um planeador de viagens pode mostrar ao passageiro que existe uma combinação entre um comboio, um autocarro interurbano e uma rede urbana. Isso não significa que consiga vender a viagem como um produto integrado nem, sobretudo, que exista uma cadeia única de responsabilidade quando uma perturbação no primeiro serviço provoca a perda da ligação seguinte. A integração da informação é, por isso, apenas a primeira camada da integração multimodal.
O parecer europeu coloca igualmente no centro do debate o acesso aos dados e as condições comerciais entre operadores e plataformas. O Comité defende requisitos de acesso não discriminatório e condições justas, razoáveis e não discriminatórias, acompanhados por normas técnicas harmonizadas e regras mais claras sobre os direitos dos passageiros em situações de perturbação. Na prática, isto aproxima a bilhética de uma questão de interoperabilidade: tal como redes ferroviárias diferentes precisam de normas técnicas comuns para permitir a circulação dos comboios, sistemas comerciais diferentes precisam de protocolos e regras comuns para permitir que uma viagem atravesse vários operadores.
Portugal oferece um contexto particularmente interessante para esta discussão. A multiplicidade de autoridades de transporte, operadores, sistemas tarifários e plataformas de venda torna a integração nacional um problema semelhante, em menor escala, ao que a União Europeia procura resolver entre Estados-Membros. Projetos de bilhética integrada podem eliminar algumas barreiras, mas o verdadeiro salto ocorre quando o passageiro deixa de ter de conhecer a organização institucional do sistema para conseguir utilizá-lo.
A questão não é apenas tecnológica. Uma plataforma pode tecnicamente agregar horários e tarifas, mas continua a ser necessário definir quem controla a distribuição, quem suporta o risco comercial, como são repartidas as receitas e quem responde perante o passageiro. É precisamente por isso que a construção de uma mobilidade verdadeiramente multimodal depende tanto de regulação e governação como de aplicações móveis.
O objetivo final deve ser simples do ponto de vista do utilizador: indicar uma origem e um destino, comparar alternativas relevantes, comprar a viagem e saber que existe proteção ao longo de toda a cadeia. Quanto mais complexa for a arquitetura necessária para que isso aconteça, menos essa complexidade deverá ser visível para o passageiro.