A eletrificação dos transportes está a transformar a infraestrutura de carregamento num problema que já não pode ser tratado exclusivamente a partir do veículo ou do ponto de carga. À medida que aumentam as frotas elétricas, os carregadores rápidos e os depósitos eletrificados, torna-se necessário planear simultaneamente mobilidade, potência disponível, capacidade das redes de distribuição, armazenamento de energia e horários de carregamento. A localização de um carregador passa, assim, a ser também uma decisão de planeamento energético.
O problema tende a tornar-se particularmente relevante quando o carregamento deixa de estar distribuído por milhares de veículos particulares e passa a concentrar-se em frotas. Um depósito com dezenas ou centenas de autocarros, um centro logístico com camiões elétricos ou uma área de serviço equipada com carregadores de muito elevada potência pode representar uma carga elétrica significativa num único ponto da rede. A potência nominal dos carregadores é, por isso, apenas uma parte da equação. Importa saber quantos veículos carregam simultaneamente, durante quanto tempo e com que margem operacional.
A gestão inteligente da carga permite reduzir essa simultaneidade. Um sistema pode conhecer a hora de saída prevista de cada veículo, o estado da bateria e a energia necessária para o serviço seguinte e distribuir o carregamento ao longo da noite ou dos períodos de menor procura. Em determinadas situações, baterias estacionárias podem igualmente permitir armazenar energia e reduzir os picos solicitados à rede. No futuro, soluções vehicle-to-grid poderão acrescentar uma camada adicional de flexibilidade, embora a sua utilização dependa dos veículos, dos mercados de energia e das condições de exploração das frotas.
Esta lógica tem consequências diretas no planeamento urbano. Um município que pretenda eletrificar uma rede de autocarros não deve escolher primeiro o depósito e estudar posteriormente a potência disponível. Da mesma forma, a localização de hubs de carregamento para veículos pesados deverá considerar os corredores logísticos e a procura de transporte, mas também a capacidade da rede elétrica e a possibilidade de a ampliar. Mobilidade e energia passam a ter de ser planeadas sobre a mesma cartografia.
Portugal constitui um caso particularmente interessante para esta integração. A eletrificação progressiva dos transportes públicos, das frotas empresariais e do transporte rodoviário de mercadorias aumentará a concentração de consumos em depósitos, plataformas logísticas e principais corredores. Incorporar previsões de procura elétrica nos estudos de mobilidade e, inversamente, informação sobre fluxos de transporte no planeamento energético pode evitar investimentos sobredimensionados num local e insuficientes noutro.
O desafio seguinte não será, portanto, apenas instalar mais carregadores. Será garantir que a infraestrutura elétrica consegue alimentar os veículos quando estes precisam de circular. À medida que a mobilidade elétrica ganha escala, a qualidade do planeamento da rede pode tornar-se tão importante para a operação dos transportes como a autonomia das baterias.