Pedonalizar não afasta necessariamente o comércio: Madrid mostra como o apoio cresce depois da obra

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A oposição do comércio local é uma das dificuldades mais frequentes encontradas pelos municípios quando pretendem retirar automóveis de uma rua ou praça. O receio de perder clientes, reduzir vendas ou dificultar cargas e descargas surge muitas vezes antes da intervenção estar concluída. Um novo estudo realizado em Madrid sugere, contudo, que a perceção dos comerciantes pode evoluir significativamente depois de a pedonalização entrar em funcionamento.

A investigação, publicada a 28 de setembro na European Transport Research Review, analisou duas intervenções de grande dimensão em Puerta del Sol e Plaza de Olavide. Foram entrevistados 103 estabelecimentos, 52 em 2023, pouco depois da implementação das intervenções, e 51 em 2025, quando a nova configuração do espaço público já estava consolidada. A amostra incluiu comércio, restauração, hotelaria e serviços.

Os resultados mostram níveis elevados de satisfação desde a primeira fase e uma avaliação ainda mais favorável dois anos depois. Em 2025, 57% dos estabelecimentos entrevistados consideravam que as vendas tinham aumentado após a pedonalização. Em Puerta del Sol, 58% referiam um aumento e apenas 8% uma diminuição. Importa, contudo, sublinhar que se trata da perceção dos comerciantes entrevistados e não de uma medição contabilística das vendas, pelo que os resultados não demonstram, por si só, uma relação causal entre pedonalização e faturação.

Um dos resultados mais interessantes é que a dimensão da empresa, a antiguidade do estabelecimento e o respetivo volume de negócios não surgiram como fatores estatisticamente significativos para explicar a satisfação. Pelo contrário, a perceção de aumento das vendas e do número de peões, assim como a valorização de ruas mais tranquilas e confortáveis, estava positivamente associada à aceitação da intervenção. Isto sugere que a reação do comércio pode depender menos do perfil do estabelecimento do que da forma como a transformação altera efetivamente a utilização da rua.

O estudo também confirma, porém, que retirar automóveis não elimina a necessidade de garantir acessibilidade. Os problemas de abastecimento e distribuição de mercadorias estão associados a níveis inferiores de satisfação, levando os investigadores a destacar a importância de encontrar soluções adequadas para as entregas. Janelas horárias de carga e descarga, zonas logísticas próximas, acessos autorizados em determinados períodos ou soluções de distribuição de última milha tornam-se, por isso, componentes do próprio projeto de pedonalização e não questões que devam ser resolvidas posteriormente.

O caso de Puerta del Sol é particularmente revelador porque a intervenção eliminou quase um quilómetro de espaço rodoviário e criou cerca de 16.750 metros quadrados de área pedonal, mantendo simultaneamente elevada acessibilidade através de metro e ferrovia suburbana. O efeito de uma restrição ao automóvel depende, assim, não apenas do espaço que se retira ao tráfego, mas das alternativas que continuam disponíveis para chegar ao local.

Para as cidades portuguesas, a principal lição está menos em concluir que a pedonalização beneficia sempre o comércio e mais na necessidade de medir os seus efeitos. Contagens pedonais, acessibilidade por transporte público, ocupação comercial, volumes de vendas quando disponíveis, tempos de carga e descarga e inquéritos aos comerciantes antes e depois da intervenção permitem substituir parte do debate baseado em perceções por evidência. Uma boa pedonalização não é apenas uma rua onde deixaram de circular automóveis: é um sistema de acessibilidade redesenhado para pessoas, comércio e logística urbana.