A fragmentação dos sistemas de bilhética é uma das faces menos visíveis da fragmentação do transporte público português. Cartões diferentes, aplicações próprias, tecnologias distintas e regras específicas de cada região fazem com que uma viagem entre redes de transporte possa exigir ao passageiro vários suportes e processos de compra. O 1Bilhete.pt foi criado para atuar precisamente sobre esta barreira, estabelecendo uma arquitetura comum que permita aos diferentes sistemas comunicar entre si.
Formalizado em fevereiro de 2023 sob coordenação do Instituto da Mobilidade e dos Transportes (IMT), com participação da Transportes Metropolitanos de Lisboa (TML) e dos Transportes Intermodais do Porto (TIP), o projeto não pretende substituir todas as plataformas existentes por um único sistema central. O objetivo é criar condições de interoperabilidade, permitindo que cartões, aplicações e outros meios de pagamento possam funcionar em diferentes redes. Atualmente, o portal do projeto identifica como aderentes, além da TML, TIP e IMT, entidades como a CP, Transtejo/Soflusa e várias comunidades intermunicipais.
A arquitetura proposta abrange três universos tecnológicos. Na bilhética clássica, baseada em cartões sem contacto, está prevista a evolução da plataforma APEX através de adaptadores capazes de acomodar diferentes tecnologias e modelos de dados. Na bilhética móvel serão disponibilizadas ferramentas e serviços para aplicações de carregamento de cartões e utilização de cartões virtuais em smartphones. Na bilhética aberta, o projeto prevê uma arquitetura de referência para pagamentos através de cartões bancários contactless baseados em cEMV.
Um dos elementos mais relevantes é a introdução de princípios de Account Based Ticketing, ou ABT. Neste modelo, o suporte utilizado pelo passageiro deixa de ter necessariamente de armazenar toda a informação relativa ao título de transporte. O cartão, telemóvel ou meio bancário pode funcionar sobretudo como identificador de uma conta existente no sistema, permitindo que regras tarifárias, viagens realizadas e eventuais benefícios sejam processados numa plataforma de backoffice. Esta mudança aproxima a bilhética portuguesa das soluções que estão a ser progressivamente adotadas em várias grandes redes internacionais.
A ambição é, portanto, mais ampla do que criar um novo cartão. O 1Bilhete.pt procura construir uma camada nacional de interoperabilidade sobre sistemas que continuarão a ser geridos por diferentes autoridades e operadores. Se essa arquitetura for progressivamente adotada, um passageiro poderá utilizar um suporte já existente para adquirir ou validar títulos pertencentes a outras redes e, em determinados casos, recorrer diretamente a um cartão bancário ou a uma aplicação móvel. A complexidade tecnológica continuará a existir, mas deverá tornar-se cada vez menos visível para quem utiliza o transporte público.
Fonte principal: 1Bilhete.pt. Sobre o projeto e FAQ – soluções promovidas e arquitetura de interoperabilidade da bilhética nacional. Instituto da Mobilidade e dos Transportes, consultado em 17 de setembro de 2026.