Sistemas inteligentes de transporte evoluem dos sensores para a gestão integrada da mobilidade

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Durante décadas, aplicar tecnologia à gestão do tráfego significou sobretudo instalar detetores, câmaras, painéis de mensagem ou sistemas de controlo semafórico. A evolução atual dos sistemas inteligentes de transporte está a mudar essa lógica. O centro do problema passa progressivamente da recolha de dados para a capacidade de os partilhar, combinar e transformar em decisões coordenadas sobre diferentes componentes do sistema de mobilidade.
O ITS Australia Global Summit, iniciado em Melbourne a 22 de setembro, reúne precisamente várias dessas tendências. Inteligência artificial aplicada à gestão semafórica, transporte conectado, integração modal, partilha de dados, logística, cobrança pelo uso da infraestrutura e confiança pública surgiram entre os temas centrais das primeiras sessões. A mensagem transversal é que a tecnologia já disponível é frequentemente mais avançada do que a capacidade institucional para a integrar.
A Austrália tem vindo a estruturar esta evolução através de uma estratégia nacional para tecnologias do transporte rodoviário. Entre as prioridades estão a automação dos veículos, a conectividade e o desenvolvimento dos C-ITS, sistemas cooperativos que permitem comunicação entre veículos, infraestrutura, centros de gestão e, potencialmente, outros utilizadores da via. O objetivo deixa de ser apenas observar o trânsito para permitir que diferentes elementos do sistema troquem informação e reajam em tempo real.
As aplicações vão desde avisos sobre perigo e gestão dinâmica da velocidade até prioridade semafórica, gestão de incidentes ou otimização de corredores. Sistemas adaptativos já conseguem alterar tempos semafóricos de acordo com as condições observadas. A utilização de inteligência artificial acrescenta capacidade de identificar padrões mais complexos, antecipar congestionamento e coordenar decisões numa escala superior à de uma única interseção.
Mas a disponibilidade de mais dados não garante, por si só, melhores decisões. Um sistema inteligente depende da qualidade, interoperabilidade e atualização dos dados, mas também de regras claras sobre propriedade, acesso, privacidade e responsabilidade. Quanto mais intervenientes participam na produção de informação, desde autoridades rodoviárias a operadores de transporte, fabricantes automóveis e plataformas digitais, mais importante se torna a governação do ecossistema.
Para as cidades portuguesas, a principal lição é que modernizar centros de controlo de tráfego não deve significar apenas adquirir equipamento. A arquitetura dos dados, a interoperabilidade entre plataformas, a integração dos transportes públicos e a definição dos objetivos da gestão são igualmente importantes. Tecnologia avançada aplicada a uma política de gestão pouco definida pode apenas automatizar decisões que já eram inadequadas.
A maturidade dos ITS está, assim, a deslocar o debate da tecnologia isolada para a gestão integrada do sistema. O próximo salto não decorrerá necessariamente de instalar mais sensores, mas de conseguir que os sistemas existentes comuniquem entre si e sejam utilizados para objetivos mensuráveis de segurança, acessibilidade, eficiência e sustentabilidade.