Em 1995, o investigador suíço Marco Hüttenmoser publicou um estudo que ajudou a mudar a forma como se pensa a relação entre crianças, trânsito e espaço urbano. A questão de partida era simples, mas com profundas implicações para o planeamento: o que acontece ao desenvolvimento de uma criança quando o espaço à porta de casa deixa de poder ser utilizado autonomamente por causa do tráfego automóvel?
O trabalho, publicado na revista Children’s Environments, comparou crianças de cinco anos inseridas em dois tipos muito diferentes de ambiente residencial. Num dos grupos, as crianças podiam sair de casa e brincar no exterior sem a presença constante de adultos e sem que o tráfego rodoviário constituísse uma barreira relevante. No outro, o ambiente envolvente tornava impossível essa autonomia: para sair de casa, brincar ou contactar com outras crianças, era necessário o acompanhamento de um adulto.
A investigação teve uma dimensão mais ampla do que uma simples comparação de alguns casos. Os resultados assentaram num estudo intensivo de 20 famílias, num inquérito telefónico a 1 726 famílias da cidade de Zurique e num inquérito escrito a outras 926 famílias com crianças de cinco anos cuidadas em casa. O objetivo era perceber até que ponto as características físicas do espaço residencial se repercutiam na vida quotidiana das crianças e das próprias famílias.
As diferenças encontradas foram significativas. Hüttenmoser concluiu que ambientes residenciais inadequados, sobretudo aqueles dominados pelo tráfego automóvel, estavam associados a menores oportunidades de interação social e de desenvolvimento motor. Quando a criança não consegue utilizar autonomamente o espaço exterior, perde não apenas oportunidades de brincar, mas também situações quotidianas em que aprende a orientar-se, a interagir com outras crianças, a negociar regras e a lidar progressivamente com o risco.
O efeito ultrapassava a própria criança. Os pais das famílias residentes nos ambientes menos favoráveis suportavam uma carga acrescida, porque muitas atividades infantis passavam a depender da sua disponibilidade para acompanhar e transportar os filhos. Ao mesmo tempo, a ausência das crianças do espaço público contribuía para enfraquecer as relações de vizinhança. Para Hüttenmoser, ruas dominadas pelo trânsito não prejudicavam apenas a mobilidade infantil: dificultavam também a formação de bairros vivos, onde residentes se conhecem e desenvolvem mecanismos informais de entreajuda.
Esta conclusão permanece particularmente atual. A segurança das crianças é frequentemente analisada através do número de acidentes rodoviários, mas o estudo suíço chamava a atenção para um efeito menos visível: uma rua pode parecer segura precisamente porque as crianças deixaram de a utilizar. A redução da exposição ao risco pode ser conseguida retirando as crianças do espaço público, mas isso não significa necessariamente que o ambiente urbano tenha melhorado.
O trabalho de Hüttenmoser antecipou, assim, uma ideia hoje central na investigação sobre mobilidade infantil: a autonomia de deslocação deve ser considerada um indicador da qualidade urbana. Uma cidade adaptada às crianças não é apenas uma cidade onde estas não são atropeladas. É uma cidade onde conseguem sair de casa, brincar, encontrar outras crianças e, progressivamente, deslocar-se sem depender permanentemente de um adulto ou de um automóvel.
Trinta anos depois, esta distinção continua a colocar uma questão essencial aos municípios e aos profissionais de mobilidade: quando avaliamos uma rua, estamos apenas a medir a capacidade de circulação dos veículos ou estamos também a avaliar quem passou a poder, ou deixou de poder, utilizá-la?
Fonte principal: Hüttenmoser, M. (1995). Children and Their Living Surroundings: Empirical Investigations into the Significance of Living Surroundings for the Everyday Life and Development of Children. Children’s Environments, 12(4), 403–413.