Alguns anos depois do estudo sobre o ambiente residencial, Marco Hüttenmoser encontrou nos desenhos das crianças uma forma particularmente expressiva de observar a relação entre mobilidade e experiência urbana. Em vez de perguntar apenas como chegavam à escola, interessou-se pelo que as crianças conseguiam recordar e representar do percurso.
Um dos trabalhos mais conhecidos desta fase resultou de um projeto realizado na região suíça de Capriasca, no Ticino. Crianças entre os três e os dez anos foram convidadas a desenhar o caminho para o jardim de infância ou para a escola. Os desenhos foram posteriormente analisados por Hüttenmoser, num trabalho apresentado em 2004 e publicado em 2005 sob um título difícil de esquecer: “Wo man aussteigt, beginnt das Leben!”, que pode ser traduzido como “Onde se sai do carro, começa a vida”.
A comparação revelou um contraste marcante. As crianças que faziam o caminho a pé representavam frequentemente um território rico em referências: casas, árvores, jardins, pessoas, animais, lojas, cruzamentos, passadeiras, semáforos, espaços de brincadeira e pequenos acontecimentos que davam significado ao percurso. O caminho aparecia como uma sequência de lugares conhecidos e experiências acumuladas.
Nos desenhos das crianças transportadas de automóvel, pelo contrário, o espaço intermédio surgia muitas vezes empobrecido. O percurso podia reduzir-se a uma estrada, algumas curvas ou sinais de trânsito. Em casos extremos, a representação aproximava diretamente a casa e a escola, como se quase nada existisse entre os dois pontos. O automóvel encurtava a deslocação no tempo, mas também parecia reduzir a quantidade de território efetivamente vivido pela criança.
Hüttenmoser não utilizava estes desenhos como uma simples curiosidade gráfica. Via-os como instrumentos capazes de revelar a forma como as crianças constroem conhecimento sobre o espaço. Caminhar permite observar lentamente o ambiente, reconhecer pontos de referência, encontrar outras pessoas, repetir decisões, recordar perigos e descobrir alternativas. A deslocação quotidiana transforma-se num processo de aprendizagem informal.
É esta ideia que dá sentido à expressão “onde se sai do carro, começa a vida”. Para a criança transportada, boa parte do espaço entre a origem e o destino transforma-se numa paisagem observada através de uma janela e a uma velocidade que limita a interação. Para quem caminha, esse mesmo espaço pode tornar-se território: um lugar reconhecido, utilizado e progressivamente dominado.
O resultado tem implicações importantes para a mobilidade escolar. Transportar uma criança de automóvel até à porta da escola pode parecer a solução mais segura e eficiente numa perspetiva estritamente funcional. Mas a deslocação não é apenas o intervalo entre duas atividades. Pode ser, ela própria, uma parte importante da infância, proporcionando atividade física, contacto social, conhecimento do bairro e aquisição gradual de autonomia.
Também por isso, as políticas de mobilidade escolar não devem limitar-se a convencer os pais a deixar o automóvel em casa. Para que a caminhada possa assumir esse papel, é necessário criar percursos que as famílias considerem suficientemente seguros: passeios contínuos, atravessamentos adequados, velocidades reduzidas, boa visibilidade e condições para que a criança adquira autonomia progressivamente.
Os desenhos analisados por Hüttenmoser transformam, assim, uma questão abstrata de planeamento numa evidência intuitiva. Dois percursos podem ter exatamente a mesma origem e o mesmo destino e, ainda assim, proporcionar experiências radicalmente diferentes. Num deles, a criança é transportada. No outro, aprende a cidade.
Fonte principal: Hüttenmoser, M. (2005). Wo man aussteigt, beginnt das Leben! Kinderzeichnungen zum Thema Kind und Verkehr und ihre Bedeutung für die sozialwissenschaftliche Forschung. Verkehrszeichen, 1, 27–30.