A forma como planeamos as nossas cidades e sistemas de transporte tem ignorado sistematicamente um dos grupos mais afetados pelas decisões políticas: as crianças. Um relatório fundamental publicado pela organização Playing Out, da autoria de Alice Ferguson e Tim Gill, defende que a adoção de uma “lente da criança” no planeamento urbano não só beneficiaria os mais novos, como transformaria as ruas em espaços mais saudáveis, seguros e equitativos para toda a população. O documento argumenta que o modelo atual, focado excessivamente no automóvel, resultou numa crise de saúde física e mental infantil e numa perda drástica da liberdade de movimento das gerações mais novas.
A análise histórica presente no relatório recorda que a dominância dos carros nas ruas não foi um processo natural, mas sim o resultado de campanhas coordenadas pela indústria automóvel no início do século XX, que redefiniram as ruas como locais para veículos em vez de espaços sociais. Esta mudança teve consequências devastadoras, com milhares de mortes de crianças a serem aceitas como um efeito secundário tolerável da motorização. Embora o número de mortes de crianças nas estradas tenha caído drasticamente nas últimas décadas em países como o Reino Unido, o relatório alerta para um paradoxo: esta descida não se deve a ruas mais seguras, mas sim ao facto de as crianças terem sido retiradas do espaço público e perderem a sua autonomia.
O relatório identifica o crescimento dos veículos de grandes dimensões, como os SUVs, como uma ameaça crescente à segurança infantil. Estes veículos, muitas vezes promovidos com mensagens de segurança familiar, são na verdade duas vezes mais letais para crianças fora do veículo devido ao seu design frontal elevado que reduz a visibilidade e aumenta a gravidade do impacto. A “lente da criança” propõe que o design dos veículos e das infraestruturas deve ser regulado para proteger quem está fora do carro, priorizando a visibilidade e a segurança dos utilizadores mais vulneráveis.
Uma das premissas centrais da proposta é que as crianças funcionam como uma “espécie indicadora”: se uma cidade é bem sucedida para uma criança, será bem sucedida para todos os cidadãos. Atualmente, o planeamento focado no passageiro pendular adulto exclui as necessidades específicas de mobilidade ativa e brincadeira das crianças, que utilizam a rua de forma menos linear e mais exploratória. O relatório sugere que medidas como o estabelecimento de limites de velocidade de 30 km/h (ou 20 mph) em zonas residenciais e escolares são fundamentais não só para reduzir a sinistralidade, mas para permitir que as crianças voltem a caminhar e a brincar à porta de casa.
O documento destaca casos de sucesso que mostram que este paradigma é exequível. Em Odense, na Dinamarca, o investimento em infraestruturas cicláveis seguras resultou em 40% das crianças a deslocarem-se para a escola de bicicleta. Outros exemplos incluem o projeto “Piazzale Aperte” em Milão, que transforma espaços ao redor de escolas em praças comunitárias, e o desenvolvimento de Great Kneighton, no Reino Unido, onde o design urbano desencoraja o uso do automóvel e prioriza espaços verdes e pedonais. Estas iniciativas provam que ruas menos dominadas pelo trânsito promovem a coesão comunitária e a atividade física natural.
Para Ferguson e Gill, a mudança exige uma reforma legislativa e uma vontade política corajosa que vá além de projetos piloto isolados. Entre as propostas de ação estão o licenciamento obrigatório de infraestruturas com critérios de acessibilidade infantil, a revisão dos currículos de formação de engenheiros de tráfego e a implementação de impostos ou restrições à publicidade de veículos pesados em ambiente urbano. Em última análise, o relatório é um apelo para que as crianças deixem de ser invisíveis nas políticas de transporte e voltem a ser vistas e ouvidas como cidadãs com pleno direito ao espaço público.
Fonte Principal: Ferguson, A. & Gill, T. (2026). Streets for play, streets for freedom: How a “child lens” would transform transport policy. Playing Out CIC.