A ditadura do metal: como o automóvel expulsou as crianças das ruas

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O primeiro capítulo do relatório “Streets for play, streets for freedom” mergulha na complexa e muitas vezes trágica relação entre as crianças e a cultura do automóvel, expondo como as nossas ruas foram transformadas de espaços sociais em zonas dominadas por veículos. Alice Ferguson e Tim Gill começam por recordar que, no início do século XX, as ruas eram vistas como locais multifuncionais onde as crianças brincavam habitualmente. Esta realidade mudou não por um processo natural, mas através de um esforço coordenado da indústria automóvel para capturar a narrativa política e pública, ridicularizando quem defendia o direito ao espaço pedonal e instituindo a ideia de que os peões deviam ser “educados” para dar prioridade às máquinas.

O documento revela um paradoxo estatístico perturbador: embora as mortes de crianças nas estradas tenham caído drasticamente desde os anos 50, essa redução não se deve a ruas mais seguras, mas sim ao facto de as crianças terem sido progressivamente retiradas do espaço público. O relatório argumenta que o declínio das vítimas está diretamente correlacionado com a perda da liberdade de brincar e de circular de forma independente. Atualmente, a sinistralidade rodoviária continua a ser a principal causa de morte de crianças e adolescentes a nível mundial, um cenário que os autores descrevem como uma “pandemia escondida”.

A análise critica severamente o conceito tradicional de “segurança rodoviária”, que durante décadas focou os seus esforços na educação das crianças através de campanhas como o “Green Cross Code” no Reino Unido. Esta abordagem é vista como uma forma de culpabilização da vítima, transferindo a responsabilidade da segurança para quem tem menos capacidade de decisão e deixando intocada a verdadeira fonte do perigo: a velocidade e o design dos veículos. O relatório destaca o fenómeno do “car-spreading” — o crescimento desmesurado dos automóveis, particularmente dos SUVs, que representam hoje a maioria das vendas de veículos novos. Estes carros são especialmente letais para as crianças devido ao design frontal elevado que cria pontos cegos críticos e aumenta para o dobro a probabilidade de morte em caso de colisão.

Nem a transição para os veículos elétricos (EVs) escapa ao escrutínio, com os autores a alertarem que mudar a fonte de energia não resolve os problemas de ocupação de espaço nem o perigo inerente ao peso e tamanho dos veículos. O conceito de “motonormatividade” é introduzido para explicar o preconceito inconsciente que nos leva a aceitar a dominância do carro como algo inevitável, enquanto as crianças que tentam usar a rua são vistas como um obstáculo ao trânsito. O capítulo termina com um roteiro histórico de resistência, desde os movimentos de mães nos anos 30 até às modernas iniciativas como a “Kidical Mass”, sublinhando que a luta por ruas amigas das crianças é uma batalha antiga e fundamental pela justiça social e saúde pública.

Fonte Principal: Ferguson, A. & Gill, T. (2026). Streets for play, streets for freedom: How a “child lens” would transform transport policy. Playing Out CIC.