Prioridade aos mais novos: porque a “lente da criança” é a chave para cidades melhores

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O planeamento urbano e as políticas de transporte têm, ao longo de décadas, negligenciado sistematicamente as necessidades de cerca de 20% da população: as crianças. O segundo capítulo do relatório “Streets for play, streets for freedom” detalha as dez razões fundamentais pelas quais a adoção de uma “lente da criança” não é apenas uma escolha ética, mas uma necessidade estratégica para transformar a mobilidade. Os autores argumentam que colocar os mais novos no centro das decisões é a forma mais eficaz de reverter crises de saúde pública e criar ambientes urbanos verdadeiramente inclusivos.

A primeira e mais urgente razão prende-se com a crise de saúde infantil. Com níveis alarmantes de sedentarismo e obesidade, a restauração da liberdade de movimento e da brincadeira à porta de casa surge como uma das intervenções de saúde pública mais económicas e eficazes imagináveis. Esta questão é indissociável da justiça social, uma vez que as crianças de famílias mais desfavorecidas são as que enfrentam maiores barreiras no acesso a espaços seguros, sofrendo de forma desproporcional os impactos de um mundo desenhado para o automóvel.

Embora sejam o grupo mais impactado pela forma como as ruas são planeadas, as crianças são, paradoxalmente, as menos consideradas pelos decisores políticos. No Reino Unido, por exemplo, a legislação de igualdade protege a idade como característica apenas para maiores de 18 anos, deixando os menores num limbo jurídico onde as suas necessidades específicas podem ser ignoradas no ordenamento do território. Esta invisibilidade é agravada por uma visão redutora que foca a mobilidade infantil quase exclusivamente no trajeto casa-escola, esquecendo que as crianças utilizam a cidade para socializar e explorar em todos os momentos do dia.

A proposta de uma “lente da criança” assenta na premissa de que o que é bom para os mais novos é benéfico para todos. Ao utilizar a criança como uma “espécie indicadora”, os urbanistas garantem que o espaço público se torna seguro e acolhedor para idosos, pessoas com deficiência e mulheres. Além disso, libertar as crianças da dependência do automóvel alivia o fardo dos cuidadores, que atualmente gastam uma parte substancial do seu tempo em funções de acompanhamento e transporte.

O relatório sublinha ainda que as crianças têm direitos específicos, como o direito ao brincar consagrado na Convenção das Nações Unidas, que exige ambientes livres de perigos físicos e poluição. A forma como os mais novos usam a rua é distinta da dos adultos: para uma criança, não há separação entre transporte e brincadeira, e o trajeto é muitas vezes feito de forma não linear, exploratória e “instável”. Ignorar estas características biológicas e de desenvolvimento no design das infraestruturas é, no limite, colocar vidas em risco.

Finalmente, o capítulo defende que focar a discussão na segurança e saúde das crianças tem o potencial de acalmar as “guerras culturais” em torno da mobilidade. Ao deslocar o debate de uma disputa entre “ciclistas” e “condutores” para a proteção dos utilizadores mais vulneráveis, torna-se mais fácil construir um consenso público para medidas de acalmia de tráfego e redução da poluição. É tempo de ouvir as próprias crianças, que há décadas pedem ruas onde possam simplesmente ser “vistas e ouvidas” como cidadãs de pleno direito.

Fonte Principal: Ferguson, A. & Gill, T. (2026). Streets for play, streets for freedom: How a “child lens” would transform transport policy. Playing Out CIC.