A investigação científica em mobilidade e transportes tem registado, no último ano, uma evolução significativa, caracterizada por uma crescente integração entre dimensões tecnológicas, energéticas, urbanísticas e sociais. A literatura recente evidencia uma transição conceptual importante: a mobilidade deixou de ser analisada predominantemente como um conjunto de modos de transporte e passou a ser entendida como um sistema complexo, interdependente e fortemente condicionado por fatores comportamentais, institucionais e territoriais. Esta mudança de paradigma reflete-se tanto na natureza dos temas investigados como na diversidade disciplinar dos contributos científicos.
Estudos bibliométricos recentes confirmam esta tendência de integração. Uma análise publicada em 2025 na revista npj Sustainable Mobility and Transport, baseada em mais de sete mil publicações científicas ao longo das últimas três décadas, identificou sete grandes domínios estruturantes da investigação em mobilidade sustentável: gestão e otimização dos sistemas de transporte, emissões e descarbonização, infraestruturas e acessibilidade, governação e políticas públicas, comportamento de viagem, cidades inteligentes e mobilidade partilhada. Entre estes domínios, destacam-se como particularmente dinâmicos os temas relacionados com comportamento de mobilidade, digitalização dos sistemas urbanos e serviços de mobilidade partilhada, refletindo a crescente disponibilidade de dados e o avanço das tecnologias digitais aplicadas ao setor.
Um dos eixos de investigação mais relevantes no período recente é a aplicação de inteligência artificial e aprendizagem automática aos sistemas de transporte. A literatura científica tem evoluído rapidamente de abordagens centradas na previsão de tráfego ou na otimização isolada de operações para modelos integrados capazes de apoiar decisões em tempo real e gerir sistemas complexos. Revisões sistemáticas recentes evidenciam aplicações em áreas como a gestão dinâmica do tráfego urbano, a previsão da procura de transporte público, a logística urbana, a segurança rodoviária e a manutenção preditiva de infraestruturas. Apesar dos progressos técnicos, os autores sublinham que persistem desafios significativos, nomeadamente a disponibilidade e qualidade dos dados, a interoperabilidade entre sistemas, a transparência dos algoritmos e a necessidade de enquadramento regulatório adequado. Esta linha de investigação assume particular relevância no contexto da digitalização dos sistemas de mobilidade e da crescente complexidade operacional das redes urbanas e metropolitanas.
Outro tema central é a mobilidade elétrica e a sua integração com os sistemas energéticos. A investigação recente tem-se afastado de uma abordagem puramente tecnológica, centrada na substituição de motores de combustão por sistemas elétricos, passando a enfatizar a articulação entre mobilidade, produção e distribuição de energia e planeamento urbano. Estudos empíricos demonstram que a eletrificação do transporte, especialmente no setor do transporte rodoviário de mercadorias, implica transformações estruturais nas cadeias logísticas e nos modelos de investimento em infraestrutura. A literatura evidencia igualmente que a eficácia da transição depende de fatores institucionais e territoriais, incluindo a disponibilidade de infraestruturas de carregamento, a estabilidade das políticas públicas e a coordenação entre operadores de transporte e gestores de redes elétricas. Esta abordagem sistémica tem contribuído para reposicionar a mobilidade elétrica como um elemento central das estratégias de descarbonização e de resiliência energética.
A relação entre forma urbana, acessibilidade e comportamento de mobilidade constitui outro domínio de investigação em forte expansão. A literatura recente tem procurado quantificar os efeitos de modelos urbanos baseados na proximidade funcional, frequentemente associados ao conceito de “cidade de 15 minutos”, sobre a utilização do automóvel, a adoção de modos ativos e as emissões de gases com efeito de estufa. Os resultados disponíveis indicam que a acessibilidade local e a densidade urbana são determinantes importantes do comportamento de viagem, mas também sugerem que a eficácia destes modelos depende da qualidade da oferta de transporte público e da diversidade de usos do solo. Esta linha de investigação tem implicações diretas para o planeamento urbano e regional, na medida em que reforça a importância de estratégias integradas de ordenamento do território e mobilidade.
A micromobilidade e os serviços de mobilidade partilhada continuam igualmente a constituir um campo de investigação relevante, embora com uma evolução conceptual significativa. Os estudos recentes têm-se afastado de análises centradas exclusivamente na adoção destes modos e passaram a enfatizar o seu papel como componentes de sistemas multimodais. A evidência empírica sugere que a micromobilidade pode desempenhar um papel importante na resolução do problema da primeira e última milha, especialmente em áreas urbanas densas e bem servidas por transporte público estruturante. Contudo, a literatura destaca que os benefícios destes serviços dependem fortemente da sua integração com redes existentes e de políticas públicas que promovam a interoperabilidade tarifária, a gestão do espaço público e a segurança rodoviária.
Um quinto eixo de investigação emergente diz respeito à dimensão social e comportamental da transição da mobilidade, incluindo temas como aceitação pública, equidade territorial e inclusão social. A investigação recente tem demonstrado que a adoção de soluções tecnológicas inovadoras depende não apenas da sua eficiência técnica, mas também da perceção de utilidade, acessibilidade económica e confiança institucional por parte dos utilizadores. Estudos realizados em diferentes contextos europeus evidenciam que a persistência do uso do automóvel privado está frequentemente associada a fatores como a fiabilidade percebida dos serviços de transporte público, a disponibilidade de alternativas modais e as condições de acessibilidade em territórios periféricos. Esta linha de investigação reforça a necessidade de integrar dimensões sociais e territoriais nas políticas de mobilidade sustentável.
No que respeita aos artigos científicos mais citados recentemente, destacam-se sobretudo trabalhos de natureza sintética e metodológica, que funcionam como referências estruturantes para o campo. Revisões sistemáticas sobre aplicações de inteligência artificial aos transportes têm registado um crescimento rápido de citações, refletindo o interesse transversal desta temática. Estudos sobre modelos urbanos de proximidade e acessibilidade têm igualmente ganho visibilidade, em particular aqueles que apresentam evidência empírica baseada em dados observacionais e modelação espacial. Trabalhos sobre eletrificação do transporte rodoviário de mercadorias e sobre integração da micromobilidade em sistemas multimodais constituem também referências emergentes, sobretudo devido à sua relevância para políticas públicas e planeamento estratégico.
Relativamente aos autores e centros de investigação mais influentes, a literatura recente confirma a persistência de núcleos científicos consolidados em universidades europeias e asiáticas, com destaque para instituições como a TU Delft, a University College London, a Technical University of Munich e a Beijing Jiaotong University. Entre os investigadores com maior impacto científico recente encontram-se especialistas em modelação de transportes, mobilidade sustentável e análise de políticas públicas, cujos trabalhos têm contribuído para consolidar abordagens integradas ao planeamento da mobilidade. Em paralelo, observa-se a emergência de novas equipas de investigação especializadas em ciência de dados, sistemas energéticos e mobilidade urbana digital, refletindo a crescente interdisciplinaridade do campo.
Em termos prospetivos, a investigação científica em mobilidade e transportes tende a concentrar-se cada vez mais em problemas de natureza sistémica, caracterizados por fortes interdependências entre infraestruturas, tecnologia, comportamento humano e governança institucional. Espera-se que temas como integração entre mobilidade e energia, gestão inteligente de redes de transporte, resiliência dos sistemas urbanos e equidade territorial assumam um papel central na agenda científica dos próximos anos. Esta evolução sugere que o futuro da investigação no setor dependerá menos da inovação tecnológica isolada e mais da capacidade de conceber e gerir sistemas de mobilidade integrados, sustentáveis e socialmente inclusivos.