A descarbonização dos portos está a deixar de ser tratada como um conjunto de experiências isoladas para passar a ser abordada como transformação integrada dos sistemas portuários. Eletrificação, combustíveis alternativos, produção e armazenamento de energia, digitalização das operações e novas formas de organizar os fluxos logísticos começam a ser reunidos em estratégias que abrangem simultaneamente navios, terminais, veículos terrestres e infraestrutura energética.
Dois dos maiores programas europeus de demonstração nesta área, MAGPIE e PIONEERS, concluíram cinco anos de trabalho com a entrega à Comissão Europeia de um Green Port Master Plan e de ferramentas destinadas a facilitar a replicação das soluções testadas. Os projetos envolveram alguns dos maiores portos europeus e realizaram, em conjunto, mais de três dezenas de demonstrações relacionadas com energia limpa, digitalização, combustíveis alternativos e desenho sustentável das infraestruturas.
A presença de Sines entre os portos associados ao projeto MAGPIE dá ao tema uma relevância direta para Portugal. Os portos são simultaneamente nós das redes marítimas internacionais e grandes geradores de transporte terrestre. Uma estratégia de descarbonização que termine no limite administrativo do porto deixa de fora uma parte importante das emissões associadas às cadeias logísticas. A articulação com ferrovia, transporte rodoviário pesado e plataformas logísticas interiores torna-se, assim, essencial.
A eletrificação em cais é um bom exemplo da necessidade de pensar o sistema como um todo. O fornecimento de energia elétrica a navios atracados permite reduzir a utilização dos motores auxiliares, diminuindo emissões e ruído junto das áreas urbanas. Mas exige potência elétrica significativa, infraestrutura dedicada, compatibilidade entre navios e terminais e planeamento da rede energética. A mesma lógica aplica-se ao carregamento de camiões elétricos, equipamentos de movimentação de carga e outras frotas portuárias.
A digitalização pode igualmente contribuir para a redução de emissões sem alterar diretamente a tecnologia de propulsão. Melhor informação sobre horários de chegada dos navios, ocupação dos terminais, disponibilidade de cargas ou acessos rodoviários permite reduzir esperas, viagens vazias e períodos de funcionamento desnecessário dos motores. Num porto, eficiência logística e eficiência energética são frequentemente duas faces do mesmo problema.
A conclusão dos projetos MAGPIE e PIONEERS desloca agora a discussão para uma fase decisiva: replicação. O valor de um projeto-piloto europeu não está apenas na solução demonstrada num porto específico, mas na possibilidade de perceber em que condições técnicas, económicas e regulatórias a mesma solução pode funcionar noutros portos. É essa passagem da experimentação para a normalização que poderá determinar a velocidade da descarbonização portuária europeia na próxima década.