Tarifas turísticas no transporte público: pode o visitante ajudar a financiar a rede?

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O preço dos transportes públicos não serve apenas para pagar uma viagem. É também um instrumento de política de mobilidade, de financiamento do serviço e de gestão da procura. Por isso, sistemas de transporte que servem simultaneamente residentes, trabalhadores pendulares e visitantes enfrentam uma questão cada vez mais relevante nas cidades com forte pressão turística: deverá uma viagem ocasional utilizada sobretudo por turistas ter o mesmo nível de subsidiação pública que as deslocações regulares da população residente?
A questão ganhou atualidade em Lisboa com a intenção da Transtejo Soflusa de propor um aumento, acima da inflação, do bilhete ocasional entre Cais do Sodré e Cacilhas, mantendo inalterado o preço dos passes. Segundo o presidente da empresa, mais de 90% dos bilhetes ocasionais vendidos nesta ligação são utilizados para fins turísticos. A empresa estima atualmente em 68% a sua dependência do Orçamento do Estado e pretende aproximá-la dos 50%, utilizando a receita tarifária e eventualmente novas ofertas turísticas para financiar uma parcela maior da operação. A Transtejo Soflusa transportou cerca de 21 milhões de passageiros em 2025 e tem vindo simultaneamente a recuperar a regularidade da operação e a incorporar embarcações elétricas na frota.
A diferenciação entre clientes regulares e utilizadores ocasionais tem uma lógica económica diferente de uma simples subida generalizada das tarifas. Os passes são utilizados predominantemente por passageiros frequentes e desempenham uma função social e de política de mobilidade: quanto menor for o custo marginal de cada deslocação, maior é o incentivo à utilização continuada do transporte coletivo. Já o passageiro ocasional, sobretudo quando a própria viagem integra uma experiência turística, pode apresentar uma disponibilidade para pagar diferente. A segmentação deve, no entanto, ser feita através do produto tarifário e não das características pessoais ou da nacionalidade do passageiro: um residente que compre um bilhete ocasional deve pagar o mesmo que um visitante nas mesmas condições.
A sensibilidade da procura às tarifas aconselha igualmente alguma prudência. Investigação desenvolvida para o Metro de Lisboa encontrou elasticidades de longo prazo relativamente significativas, mostrando que alterações de preço podem produzir mudanças efetivas na procura. Esses resultados dizem respeito a outro modo de transporte e a outros produtos tarifários, pelo que não podem ser diretamente transferidos para a ligação fluvial a Cacilhas. Mostram, contudo, por que razão uma alteração tarifária deve ser acompanhada por análise da procura, segmentação dos passageiros e monitorização posterior das vendas.
Há ainda um segundo efeito relevante. Quando um serviço de transporte assume simultaneamente funções quotidianas e turísticas, uma receita adicional obtida nos segmentos com maior disponibilidade para pagar pode contribuir para financiar frequência, manutenção da frota, capacidade e qualidade do serviço utilizado pelos passageiros regulares. Esse mecanismo só é virtuoso se a receita adicional regressar efetivamente ao sistema e se a tarifa não criar obstáculos desproporcionados à mobilidade ocasional da população.
O caso Cais do Sodré-Cacilhas poderá, por isso, tornar-se um teste interessante para uma discussão mais ampla sobre financiamento dos transportes metropolitanos. Lisboa recebe milhões de visitantes e parte significativa dessa procura utiliza infraestruturas e serviços dimensionados e financiados pelo setor público. Em vez de uma política uniforme de preços, sistemas tarifários mais sofisticados podem combinar passes acessíveis para utilização frequente, integração metropolitana e produtos ocasionais ou turísticos com preços mais próximos do valor percebido pelo utilizador. A questão decisiva não é simplesmente cobrar mais, mas perceber quem utiliza cada produto, qual a elasticidade da procura e de que forma a receita obtida melhora o serviço público.