Modernizar uma rede de transportes é mais do que substituir veículos antigos

//

w2g

A modernização dos transportes públicos é frequentemente apresentada através das componentes mais visíveis do investimento: novos comboios, novos autocarros ou estações renovadas. Mas uma rede transforma-se verdadeiramente quando esses investimentos são coordenados para produzir mais frequência, maior acessibilidade, menores tempos de espera e uma rede que pode ser utilizada espontaneamente, sem que o passageiro tenha de organizar toda a sua viagem em torno do horário do transporte.
É essa abordagem sistémica que está no centro do plano Accelerate apresentado pela SEPTA, a autoridade de transportes da região de Filadélfia. O programa prevê um ciclo de investimento de cerca de uma década que combina renovação de material circulante, transformação da rede ferroviária regional, modernização dos elétricos, melhoria das estações e aumento substancial das linhas de autocarro de alta frequência. Entre os investimentos anunciados estão 130 novos elétricos de piso baixo, 200 novas carruagens para a Market-Frankford Line e a abertura do processo para aquisição de 230 veículos para o Regional Rail.
Mais importante do que os números da frota é o resultado operacional pretendido. A SEPTA quer oferecer intervalos de 15 minutos ou inferiores em quase metade das aproximadamente 150 estações do Regional Rail e aumentar de oito para 29 o número de linhas de autocarro consideradas de alta frequência. Segundo a autoridade, a combinação destas medidas aumentaria de cerca de 900 mil para mais de dois milhões o número de pessoas residentes a menos de um quarto de milha de transporte frequente. A proporção dos empregos da região situados à mesma distância aumentaria de cerca de um quarto para quase metade.
Esta mudança é relevante porque frequência e proximidade funcionam em conjunto. Uma paragem próxima com um serviço de hora a hora oferece uma acessibilidade muito diferente de uma paragem servida a cada dez ou quinze minutos. Quando a frequência é suficientemente elevada, o passageiro pode deixar de consultar antecipadamente o horário e passa a tratar o transporte público como uma infraestrutura permanentemente disponível. A redução do chamado “custo de espera” altera a competitividade do modo e simplifica transbordos entre linhas.
A acessibilidade física é outra componente estruturante do plano. A SEPTA estima que atualmente apenas cerca de 60% das viagens passam integralmente por estações acessíveis e pretende levar esse indicador a 100%. Esta forma de medir acessibilidade é particularmente interessante: não basta contar estações adaptadas individualmente. Para que uma viagem seja verdadeiramente acessível, origem, destino e todas as etapas intermédias têm de permitir a utilização por pessoas com mobilidade condicionada.
Para Portugal, a abordagem é especialmente pertinente nas redes ferroviárias suburbanas e regionais, mas também nos sistemas de autocarros metropolitanos. A renovação de material circulante produz benefícios limitados se não for acompanhada por frequência, regularidade, boas interfaces e acessibilidade universal. O mesmo se aplica à modernização de estações se o serviço que nelas passa continuar pouco frequente.
Planear a modernização de uma rede significa, portanto, começar por indicadores que expressem a experiência do passageiro: população e emprego servidos por transporte frequente, intervalo máximo entre serviços, percentagem de viagens integralmente acessíveis, regularidade e tempos de transbordo. Os veículos e as obras tornam-se então instrumentos para atingir esses objetivos, em vez de constituírem o objetivo final do investimento.