O transporte artesanal, embora constitua a espinha dorsal da mobilidade para milhões de pessoas em cidades do Sul Global, opera frequentemente numa zona cinzenta onde a segurança é sacrificada em nome da sobrevivência económica. Para os passageiros que dependem de veículos como os matatus no Quénia, os gbakas na Costa do Marfim ou as chapas em Moçambique, a viagem diária é marcada por uma combinação de riscos que vão desde a sinistralidade rodoviária extrema até à violência urbana e abusos sistemáticos.
A raiz de muitos destes perigos reside no chamado “sistema de metas”. Sob este modelo, os motoristas são obrigados a entregar um valor fixo diário aos proprietários dos veículos, retendo apenas o excedente como rendimento. Esta pressão financeira esmagadora incentiva comportamentos de condução altamente perigosos, como o excesso de velocidade, manobras bruscas para “roubar” passageiros à concorrência e jornadas de trabalho exaustivas, que muitas vezes ultrapassam as 15 horas diárias. A fadiga resultante é um dos principais fatores de acidentes, levando alguns motoristas ao uso de substâncias ilícitas para se manterem acordados.
No que toca à segurança rodoviária, o estado das frotas é alarmante. Em muitas regiões, mais de 90% dos veículos são considerados mecanicamente inseguros, circulando com pneus carecas, travões desgastados e sem iluminação adequada. O problema é exponenciado em veículos de duas e três rodas, como os boda-bodas ou os ojeks, que são particularmente vulneráveis em ambientes de tráfego misto onde os condutores de veículos maiores raramente respeitam a sua presença. Em cidades como Banguecoque ou Kampala, as taxas de acidentes com mototáxis são dramaticamente superiores às de qualquer outro modo de transporte.
Para além do aspeto rodoviário, a segurança pessoal é uma preocupação constante. O facto de o transporte informal ser um negócio baseado em dinheiro vivo torna motoristas e passageiros alvos prioritários para assaltos violentos. Em contextos mais extremos, como o da África do Sul, o setor foi fustigado pelas “guerras de táxis”, confrontos armados entre operadores por rotas lucrativas que custaram milhares de vidas. Já em Abdijã, a presença dos “gnambros” — grupos que utilizam a força e a intimidação para extorquir taxas aos motoristas — acrescenta uma camada de criminalidade organizada ao ecossistema.
As mulheres enfrentam riscos específicos e desproporcionais. Relatos de assédio sexual, toques inapropriados e intimidação verbal são comuns, sendo perpetrados tanto por passageiros como por colegas de trabalho. Muitas trabalhadoras do setor afirmam sentir-se obrigadas a suportar estas agressões para manterem os seus empregos. Finalmente, a saúde pública é comprometida pela exposição contínua a níveis elevados de poluição atmosférica, resultando em doenças respiratórias crónicas para quem passa o dia nas ruas.
A reforma destes sistemas, focada na segurança e na dignidade do trabalho, é vista como o único caminho para quebrar este ciclo de perigosidade, transformando estas redes orgânicas em componentes seguras da mobilidade urbana moderna.
Fonte Principal: Understanding Informal Transport in Africa – VREF