O quarto capítulo do relatório “Streets for play, streets for freedom” funciona como uma montra de esperança para o urbanismo contemporâneo, demonstrando que a teoria da “lente da criança” já tem aplicações práticas com resultados mensuráveis. Através de uma seleção de casos de estudo nacionais e internacionais, os autores Alice Ferguson e Tim Gill apresentam projetos que conseguiram inverter a hierarquia tradicional dos transportes, colocando a segurança e o brincar à frente da conveniência do automóvel. Estes exemplos revelam que, quer em novos empreendimentos quer na requalificação de bairros antigos, a redução da dominância dos carros cria ambientes mais saudáveis e vibrantes para toda a comunidade.
No Reino Unido, o desenvolvimento de Great Kneighton, em Cambridge, destaca-se por ter sido planeado desde a sua génese para ser menos dependente do veículo privado. Com ruas estreitas e arborizadas, onde ultrapassar os 25 km/h é quase impossível devido ao design da via, o projeto prioriza caminhos pedonais e cicláveis que ligam habitações a espaços verdes e centros comunitários. Na mesma cidade, o projeto de co-habitação Marmalade Lane levou este conceito mais longe ao criar um ambiente quase totalmente livre de carros, onde o estacionamento foi remetido para a periferia do lote para libertar o espaço central para jardins partilhados e uma “rua de brincar”. Um relatório de avaliação após cinco anos de ocupação confirmou que este design promoveu a independência das crianças, que utilizam o espaço para jogos imaginários, desenhos a giz e para aprenderem a andar de bicicleta num ambiente seguro e vigiado pelos vizinhos.
A transformação urbana não se limita apenas a novos bairros, como prova o ambicioso projeto “Mini-Holland” em Waltham Forest, Londres. Entre 2013 e 2021, esta iniciativa implementou uma rede de bairros de tráfego reduzido que resultou numa queda de 75% nas lesões rodoviárias e num aumento de mais de 50% no tempo que os residentes passam a pedalar. Apesar das resistências iniciais comuns a estes projetos, estudos financiados pela autoridade de transportes de Londres demonstraram que as preocupações com o desvio de tráfego para as vias principais eram infundadas e que a maioria da população apoia a medida após a sua implementação. Este modelo de intervenção é complementado pela crescente rede de “ruas de brincar” (play streets) de gestão residente, um modelo que nasceu em Bristol e que permite o fecho temporário de ruas ao trânsito para que as crianças possam ser, literalmente, vistas e ouvidas nas suas comunidades.
No plano internacional, o relatório aponta para Odense, na Dinamarca, como um farol da mobilidade ciclável. Designada como a Cidade Nacional do Ciclismo, Odense apresenta números impressionantes: mais de 40% das crianças deslocam-se para a escola de bicicleta. Este sucesso é fruto de décadas de investimento e de uma legislação dinamarquesa pioneira de 1976, que obrigou as autoridades locais a proteger as crianças dos perigos do tráfego motorizado no trajeto escolar através do design das estradas e de infraestruturas dedicadas. O resultado foi uma redução drástica da sinistralidade, confirmando a teoria de que “mais ciclistas na rua” geram maior segurança para todos.
Outros exemplos europeus reforçam esta visão integrada. Em Milão, o projeto “Piazzale Aperte” utiliza o urbanismo tático para criar praças coloridas e seguras junto a escolas e creches, transformando cruzamentos perigosos em espaços de encontro para todas as idades. Na Alemanha, o bairro de Vauban, em Friburgo, é talvez um dos exemplos mais radicais de baixa motorização: as casas têm acesso direto a espaços públicos sem carros e a ausência de estacionamento à superfície permitiu a criação de parques e áreas de lazer que ocupam o lugar que noutras cidades seria destinado ao asfalto. Todos estes casos, de Ghent a Barcelona ou Paris, mostram que aplicar uma lente infantil ao planeamento urbano não beneficia apenas os mais novos, mas constrói cidades mais resilientes, inclusivas e humanas.
Fonte Principal: Ferguson, A. & Gill, T. (2026). Streets for play, streets for freedom: How a “child lens” would transform transport policy. Playing Out CIC.