Mobilidade para o futuro: as propostas radicais para uma cidade à escala da criança

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O encerramento do relatório “Streets for play, streets for freedom” lança um desafio direto aos decisores políticos e planeadores urbanos: é tempo de abandonar as reformas incrementais e abraçar uma mudança de paradigma que coloque a lente da criança no centro de todas as decisões de transporte. Os autores Alice Ferguson e Tim Gill reconhecem que qualquer desafio à dominância do automóvel enfrenta resistências profundas, mas argumentam que as medidas consideradas radicais, como as zonas de 20 mph ou as ruas escolares, conquistam o apoio da maioria da população assim que são implementadas com sucesso. O capítulo final funciona como um manifesto de “e se…?”, propondo uma visão onde a segurança rodoviária deixa de ser sobre educar a criança para o perigo e passa a ser sobre desenhar o sistema para a proteger.

No domínio legislativo e regulatório, o relatório sugere que os limites de velocidade de 20 mph (cerca de 30 km/h) devem tornar-se o padrão em todos os locais onde as crianças vivem, aprendem ou brincam, seguindo o exemplo pioneiro de Gales e de cidades como Hoboken, que eliminou as mortes na estrada desde 2017. Mais audaz é a proposta de transpor para o Reino Unido o modelo neerlandês de responsabilidade objetiva, onde o ónus da prova recai sobre o condutor em qualquer colisão que envolva crianças, forçando uma condução intrinsecamente mais defensiva. Estas medidas devem ser acompanhadas por um controlo rigoroso do design dos veículos, limitando a altura do capot e garantindo padrões de visibilidade que permitam ao condutor ver uma criança pequena à sua frente.

A transformação estende-se ao planeamento e ao orçamento, defendendo-se que pelo menos 10% dos fundos de transporte sejam obrigatoriamente alocados à mobilidade ativa e ao transporte público, com metas claras para a mudança modal nas faixas etárias mais jovens. O relatório critica a recente Estratégia de Segurança Rodoviária do Reino Unido de 2026 por ser excessivamente conservadora, apontando que metas de redução parcial de mortes infantis são, na prática, uma aceitação tácita de tragédias evitáveis. Em contrapartida, a criação de conselhos de cidadãos que incluam a voz das crianças e o dever legal de as consultar em projetos urbanos são vistos como passos essenciais para devolver às gerações futuras o direito à autonomia e ao espaço público.

A visão final deste estudo é a de que a rua não deve ser apenas um canal de passagem para máquinas, mas um espaço de soleira onde a vida comunitária floresce. Ao reconfigurar o estacionamento para libertar as frentes de casa e ao desenhar cruzamentos com foco na visibilidade infantil, as cidades tornam-se automaticamente mais inclusivas para idosos, mulheres e pessoas com deficiência. O compromisso recente de vários autarcas regionais para transformar o trajeto escolar é um sinal de esperança de que a “lente da criança” está finalmente a começar a ser compreendida como a ferramenta mais poderosa para construir sociedades mais saudáveis, resilientes e humanas.

Fonte Principal: Ferguson, A. & Gill, T. (2026). Streets for play, streets for freedom: How a “child lens” would transform transport policy. Playing Out CIC.