Veículos autónomos: entre a utopia da eficiência e o risco do novo congestionamento

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O debate sobre o futuro da mobilidade urbana ganhou um novo fôlego com a recente reflexão do podcast What is The Future for Cities?, que explorou como os veículos ligados e autónomos podem transformar radicalmente a vida nas metrópoles. A conclusão central desta análise, que cruzou investigação académica com a visão do tecnólogo ambiental Cormac McKay, é que a tecnologia, por si só, é neutra. O resultado final — seja uma eficiência utópica ou uma expansão urbana desordenada — dependerá inteiramente da forma como governos e planeadores desenharem a sua integração no espaço público.

Um dos dados mais impressionantes destacados revela que um único veículo autónomo partilhado (SAV) tem potencial para substituir até 11,5 carros particulares, servindo entre 31 a 41 passageiros por dia. Esta mudança de paradigma permitiria reduzir drasticamente a frota global e libertar até 90% do espaço hoje ocupado por estacionamento, devolvendo terrenos preciosos para a construção de habitação, parques ou zonas de mobilidade ativa. Contudo, esta promessa de espaço livre acarreta riscos comportamentais significativos, uma vez que o facilitismo de viajar sem o esforço da condução pode incentivar as pessoas a percorrerem distâncias até 25% maiores. Além disso, surge o perigo das “milhas fantasma”, onde veículos vazios circulam apenas para evitar taxas de estacionamento ou à espera do próximo passageiro, o que exige uma gestão ativa da procura e incentivos ao transporte partilhado.

A solução para evitar o caos do tráfego passa pela transformação destes veículos em plataformas modulares e multiusos. A visão apresentada por McKay sugere que os robotáxis não sirvam apenas para transportar pessoas, mas funcionem também como transportadores de carga, hotéis de encomendas ou até baterias móveis que armazenam energia renovável para alimentar a rede elétrica em picos de procura. No campo do transporte coletivo, a inovação aponta para autocarros modulares compostos por unidades que se destacam e reúnem de forma autónoma, otimizando percursos sem obrigar todo o comboio a parar em cada paragem.

Para acelerar esta transição e torná-la socialmente atraente, o podcast defende a criação de incentivos práticos, como os vouchers de mobilidade partilhada. A ideia assenta em oferecer assinaturas de transporte público ilimitado complementadas por robotáxis para o início e fim da viagem a quem abdicar do carro privado. Além dos ganhos ambientais, esta tecnologia promete aumentar a segurança e a inclusividade, sendo já uma opção preferencial para mulheres que procuram a tranquilidade de viajar num ambiente sem condutor humano. O futuro, sublinham os especialistas, já não é uma miragem tecnológica, mas sim uma decisão política que exige ação imediata para garantir ruas mais seguras e comunidades mais resilientes.