O Paradoxo da Mobilidade: Porque é que menos carros significam economias mais fortes

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O estudo “The Mobility-Productivity Paradox”, assinado por Todd Litman do Victoria Transport Policy Institute, apresenta uma tese que desafia décadas de planeamento urbano convencional: a produtividade económica tende a diminuir à medida que o tráfego de veículos motorizados aumenta. Contrariamente à perceção popular de que estradas mais rápidas e baratas impulsionam o crescimento, a evidência em economias maduras indica que a prosperidade é potenciada pela redução da dependência do automóvel e pelo investimento em modos de transporte alternativos. Esta análise demonstra que, embora o automóvel possa ser produtivo em contextos específicos, o excesso de mobilidade motorizada gera custos ineficientes que superam os seus benefícios marginais.

O planeamento focado no automóvel prejudica a eficiência económica de várias formas, começando pelos elevados custos diretos para os utilizadores — cerca de 10.000 dólares anuais por veículo entre despesas de posse, operação e infraestrutura — que acabam por drenar orçamentos familiares e reduzir o consumo noutros setores mais produtivos, como a educação ou a habitação. Além disso, o investimento massivo em estradas e estacionamentos representa um fardo para o erário público e para as empresas, que acabam por transferir esses custos para os impostos e para os preços dos bens de consumo. Outro fator crítico é a fuga de capital: os gastos com veículos e combustíveis geram pouco emprego local, uma vez que a maior parte da receita sai da comunidade, ao contrário do investimento em transportes públicos, onde cerca de 75% da despesa permanece na economia regional através de mão-de-obra e bens locais.

A investigação revela que a produtividade e as milhas percorridas por veículo se “desacoplaram” no século XXI; enquanto no século passado caminhavam juntas, hoje as novas tecnologias e a eficiência urbana permitem gerar riqueza com menos deslocações motorizadas. Dados de cidades globais e estados norte-americanos confirmam que o Produto Interno Bruto (PIB) per capita tende a ser mais elevado em regiões com maior densidade urbana, redes de transporte público robustas e elevadas quotas de utilização de bicicleta e caminhada. Inesperadamente, a produtividade até aumenta em cenários de maior congestionamento e preços de combustível mais altos, pois estas condições incentivam o uso mais inteligente do solo e dos recursos, desencorajando viagens de baixo valor e o espraiamento urbano dispendioso.

O estudo conclui que as cidades mais bem-sucedidas são aquelas que priorizam a acessibilidade em vez da mobilidade pura, criando ambientes compactos onde as pessoas podem chegar ao que precisam sem estarem presas ao volante. Ao limitar o solo dedicado ao estacionamento e investir em redes pedonais e cicláveis, os municípios atraem mais residentes, trabalhadores e clientes, gerando maiores receitas fiscais e valores imobiliários. O caminho para a prosperidade passa, portanto, por um sistema de transporte diverso, onde o automóvel é utilizado apenas quando é verdadeiramente a opção mais eficiente, permitindo que a economia respire livre dos custos invisíveis da dependência do carro.