Laboratórios Vivos Urbanos: Onde o financiamento falha na transformação das cidades

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O conceito de Laboratórios Vivos Urbanos (Urban Living Labs – ULL) consolidou-se na última década como uma ferramenta essencial para testar inovações sociais e técnicas em contextos reais, procurando responder aos desafios da sustentabilidade e mobilidade nas cidades. No entanto, um estudo crítico publicado no Journal of Transport Geography por Göran Smith e Christina Lindkvist revela que a forma como o financiamento europeu é estruturado está a moldar estas práticas de investigação de uma forma que pode limitar o seu impacto real na transformação das políticas urbanas. Ao analisar 15 projetos europeus focados em acessibilidade e conectividade, os investigadores identificaram desequilíbrios significativos entre as ambições transformadoras dos editais e a execução prática no terreno.

Um dos problemas centrais apontados é o desequilíbrio de poder entre os parceiros. Embora a co-criação seja um pilar teórico dos laboratórios vivos, na prática, as organizações de investigação dominam quase por completo o trabalho e a tomada de decisão. As cidades e os agentes locais, que deveriam liderar a implementação das mudanças, acabam frequentemente remetidos para papéis secundários ou meramente consultivos. Este cenário é alimentado por estruturas de financiamento que privilegiam a capacidade de gestão de projetos complexos das universidades, em detrimento da capacidade operacional das autarquias, que lidam frequentemente com orçamentos de austeridade e falta de pessoal dedicado.

A investigação destaca ainda um “viés de inovação”, onde os projetos se focam quase exclusivamente no desenvolvimento de novas soluções tecnológicas ou nichos de mercado, negligenciando a necessária desestabilização dos regimes atuais, como a dependência do automóvel particular. Além disso, a curta duração dos financiamentos — geralmente limitados a três anos — empurra os projetos para atividades operacionais de curto prazo, impedindo a criação de visões estratégicas e coligações de longo curso que sobrevivam ao fim do financiamento externo.

Outra lacuna crítica reside na “sub-teorização” de conceitos fundamentais. Termos como “acessibilidade” e “conectividade” são usados de forma recorrente mas raramente definidos ou adaptados aos contextos urbanos específicos onde os projetos ocorrem. Esta falta de rigor concetual, aliada a uma descrição vaga dos contextos locais, dificulta a transferência de conhecimento entre cidades e a produção de lições generalizáveis para a política de transportes a nível europeu.

Para que os futuros laboratórios vivos possam cumprir a sua promessa de neutralidade carbónica e justiça espacial, os autores recomendam editais de financiamento mais flexíveis e democráticos. Uma das soluções propostas passa por permitir que as próprias cidades e regiões assumam a liderança principal dos consórcios, garantindo que a investigação responda a necessidades reais e que as inovações testadas se tornem práticas institucionais permanentes em vez de experiências isoladas que desaparecem quando o financiamento termina.

Fonte Principal: Smith, G., & Lindkvist, C. (2026). How urban living lab funding shapes research practices: A critical analysis of 15 European urban accessibility and connectivity projects. Journal of Transport Geography.