Cidades Inteligentes e Resiliência: O Gap entre a Tecnologia e o Fator Humano

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O conceito de cidades inteligentes está a tornar-se o pilar central na resposta a desastres naturais, mas a eficácia desta transição depende de um equilíbrio ainda não alcançado entre a sofisticação tecnológica e o planeamento social. Uma revisão sistemática da literatura publicada no Journal of Planning Literature em 2023, da autoria de Kijin Seong e Junfeng Jiao, analisou 118 estudos para mapear como as ferramentas digitais estão a moldar a resiliência urbana moderna. A investigação revela que o interesse académico pelo tema disparou na última década, com quase 70% da produção científica concentrada entre os anos de 2019 e 2022. Atualmente, a prioridade das cidades inteligentes recai sobre a implementação de sensores de Internet das Coisas (IoT), análise de Big Data e Inteligência Artificial para monitorizar e prever eventos extremos como inundações, terramotos e furacões.

Na esfera da mobilidade e da resposta imediata a emergências, destacam-se inovações como o uso de veículos aéreos não tripulados (UAVs) para assistência em áreas de crise e o desenvolvimento de sistemas inteligentes de suporte à decisão para evacuações rápidas. No entanto, o estudo de Seong e Jiao sublinha uma lacuna crítica no estado da arte: cerca de 72% dos componentes analisados focam-se exclusivamente na tecnologia e na gestão de dados, negligenciando as dimensões sociais, económicas e de governação. Esta desproporção sugere que o futuro das cidades está a ser desenhado predominantemente sob uma ótica de engenharia e ciência de dados, com uma participação ainda limitada de sociólogos e especialistas em planeamento urbano. O relatório adverte que esta abordagem puramente técnica corre o risco de aprofundar a exclusão social ao ignorar as necessidades específicas de comunidades vulneráveis que enfrentam o fosso digital.

Para que a resiliência urbana seja efetiva e sustentável a longo prazo, os investigadores defendem uma mudança de paradigma rumo a operações descentralizadas e sistemas que promovam o envolvimento cívico direto e democrático. A utilização ética da tecnologia deve incluir algoritmos de decisão que considerem a equidade na alocação de recursos durante e após catástrofes, evitando que os benefícios do investimento digital fiquem restritos a áreas mais favorecidas. A conclusão do estudo aponta para a urgência de uma colaboração interdisciplinar robusta, onde a fiabilidade dos dados recolhidos por sensores seja cruzada com o conhecimento local e a participação pública ativa. Só através desta visão integrada será possível transformar a infraestrutura tecnológica num motor de proteção comunitária verdadeiramente inclusiva e resiliente.