A tecnologia tornou-se o sistema nervoso das cidades modernas, mas esta evolução acelerada traz consigo o risco de deixar muitos cidadãos para trás. O conceito de “fosso digital” refere-se à desigualdade no acesso, na utilização e na capacidade de tirar partido das ferramentas tecnológicas, uma barreira que se manifesta de forma crítica quando analisamos a resiliência urbana perante desastres naturais. Nas chamadas cidades inteligentes, onde a segurança e a resposta a emergências dependem cada vez mais de sensores, redes de dados e inteligência artificial, este fosso pode significar a exclusão sistemática de comunidades vulneráveis das redes de proteção e auxílio.
A resiliência, entendida como a capacidade de uma comunidade para resistir, adaptar-se e recuperar rapidamente de choques como cheias, sismos ou furacões, é severamente comprometida por este desequilíbrio. Um estudo exaustivo publicado no Journal of Planning Literature revela que a grande maioria da investigação atual sobre “resiliência inteligente” — cerca de 72% — foca-se exclusivamente na componente técnica e na gestão de dados, negligenciando as dimensões sociais, económicas e de governação. Esta abordagem puramente tecnológica tende a beneficiar desproporcionalmente certas áreas, uma vez que a alocação de recursos para a mitigação de riscos segue, muitas vezes, padrões de distribuição desigual baseados na disponibilidade de infraestrutura digital.
O impacto do fosso digital na resiliência é direto e perigoso: grupos desfavorecidos, como comunidades de baixos rendimentos ou populações em áreas remotas, que já enfrentam uma maior “vulnerabilidade social”, acabam por ser duplamente penalizados se os planos de emergência e os sistemas de aviso prévio dependerem apenas de aplicações ou dispositivos digitais. Para os especialistas, a tecnologia não pode ser uma barreira, mas sim uma ponte. Por isso, defendem que o planeamento urbano deve integrar algoritmos de decisão focados na equidade, garantindo que os benefícios da inovação tecnológica não fiquem restritos aos setores mais conectados da sociedade.
A solução para este desafio passa por uma mudança de paradigma rumo a operações descentralizadas que promovam a participação cívica direta e democrática. Ao envolver os cidadãos no desenho das soluções de resiliência, as cidades podem criar sistemas de gestão de desastres que sejam mais rápidos, inclusivos e sensíveis às necessidades reais de quem está no terreno. Em última análise, a construção de cidades verdadeiramente preparadas para o futuro exige que a infraestrutura tecnológica seja complementada pelo conhecimento local e pela justiça social, assegurando que a proteção contra catástrofes chega a todos, independentemente do seu acesso ao mundo digital.