O setor da mobilidade assiste agora à afirmação de um projeto que pretende romper com a lógica tradicional da indústria automóvel. Desenvolvido em Matosinhos pelo CEiiA – Centro de Engenharia e Desenvolvimento de Produto, o BEN é o primeiro veículo elétrico ligeiro 100% português a obter homologação europeia, estando apto a circular legalmente em todos os Estados-membros da União Europeia. Mais do que um simples meio de transporte, este microcarro apresenta-se como um “veículo-serviço”, desenhado para responder aos desafios da neutralidade carbónica e à necessidade de libertar espaço nos centros urbanos.
Tecnicamente classificado como um quadriciclo de categoria L7e, o BEN destaca-se pelas suas dimensões compactas, com 2,50 metros de comprimento, uma largura de 1,50 metros e uma altura de 1,52 metros. A sua arquitetura modular assenta num “skate” físico designado por BODY, que permite uma elevada flexibilidade interior. O habitáculo pode ser configurado para transportar até três pessoas ou ser adaptado para pequenas entregas urbanas, oferecendo um volume de carga que varia entre os 100 e os 400 litros. Esta versatilidade é complementada pela plataforma digital SPIRIT, uma camada de software externa ao veículo que gere a identificação biométrica do utilizador, o acesso através de chave digital partilhada e a monitorização de dados em tempo real através de um Digital Twin.
O compromisso ambiental é o pilar central deste projeto, que integra a tecnologia AYR, vencedora do Prémio Bauhaus Europeu. O BEN é o primeiro automóvel equipado com um contador de emissões de CO2 evitadas, registando em tempo real o impacto positivo de cada viagem em comparação com um veículo a combustão. A estratégia do CEiiA prevê que as emissões geradas durante o desenvolvimento e produção do carro sejam integralmente compensadas nos primeiros três anos da fase operacional, contribuindo ativamente para a neutralidade das cidades.
Diferenciando-se da concorrência pelo seu modelo de negócio, o BEN privilegia a partilha da posse e do uso em redes de utilizadores e comunidades. Embora vocacionado para o mundo empresarial, frotas municipais e esquemas de leasing social, o veículo foi concebido para ser acessível, com um preço de entrada estimado a partir dos 8.000 euros. A produção em larga escala está prevista para arrancar em 2026, envolvendo polos industriais em Portugal e uma parceria estratégica em Itália, no núcleo industrial de Turim, onde o modelo será industrializado em moldes colaborativos.