A Cidade de 15 Minutos sob Lupa: Inclusão Real ou Segregação Mascarada?

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O conceito da cidade de 15 minutos consolidou-se como uma das estratégias de planeamento urbano mais ambiciosas da atualidade, prometendo transformar a vida nas metrópoles ao garantir que serviços essenciais estejam à distância de uma curta caminhada ou pedalada. Contudo, um estudo abrangente publicado na revista científica PLOS One a 1 de abril de 2026 lança um alerta crítico: a hiperproximidade, embora desejável, pode não ser suficiente para garantir a inclusão social e corre o risco de reforçar padrões de segregação espacial.

A investigação, desenvolvida por uma equipa liderada por Mirko Lai e Giancarlo Ruffo, utilizou a teoria de redes complexas para analisar 81 cidades em todo o mundo, cruzando dados de acessibilidade local com a conectividade da rede de transportes. Os resultados revelam uma disparidade global profunda. No topo da eficiência está Paris, onde quase a totalidade dos residentes vive num raio de proximidade de 5,3 minutos de serviços essenciais. No extremo oposto, cidades como Houston apresentam médias superiores a 36 minutos, revelando uma dependência extrema do automóvel e uma cobertura de serviços que beneficia apenas uma pequena fração da população.

Um dos contributos mais inovadores deste estudo é a distinção entre a acessibilidade a pontos de interesse locais e a chamada “closeness” ou centralidade de proximidade, que mede quão bem um bairro está ligado ao resto da cidade através dos transportes públicos. Os investigadores descobriram que estas duas dimensões nem sempre caminham juntas. Em muitas periferias, a falta de serviços locais é agravada por uma ligação deficiente à malha urbana global, criando bolsas de exclusão geográfica onde os residentes ficam duplamente isolados.

O estudo aprofundou a análise socioeconómica em cidades italianas, utilizando o rendimento médio dos residentes como indicador de exclusão. Os dados mostram que bairros de baixos rendimentos são frequentemente penalizados por uma infraestrutura de transportes débil e escassez de serviços. No entanto, surgiu um fenómeno inesperado em zonas mais abastadas de cidades como Bolonha, Roma ou Turim: o “isolamento voluntário”. Nestes bairros de elite, a baixa acessibilidade a pé e a fraca conectividade de transportes públicos sugerem uma preferência deliberada pelo transporte privado e pela exclusividade, desafiando a ideia de que a riqueza urbana fomenta automaticamente cidades mais caminháveis e integradas.

Para os autores, estas descobertas sublinham que o planeamento focado apenas na métrica dos 15 minutos pode ocultar desigualdades estruturais. Para que as cidades sejam verdadeiramente justas, é fundamental que as políticas de zonamento e os investimentos em transportes públicos sejam desenhados para quebrar o padrão centro-periferia, garantindo que a proximidade de serviços não resulte na criação de “ilhas” urbanas desconectadas do todo social e económico da metrópole.