Portos portugueses enfrentam ventos contrários: Balanço de 2025 e os desafios para 2026

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O sistema portuário comercial do continente encerrou o ano de 2025 com uma contração de 9,7% face ao ano anterior, totalizando 82 milhões de toneladas movimentadas. Segundo o mais recente comunicado da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT), este desempenho foi fortemente condicionado pela instabilidade geopolítica mundial, nomeadamente os conflitos na Ucrânia e no Médio Oriente, bem como a insegurança no Mar Vermelho, que forçaram a reorganização das redes marítimas globais. Esta conjuntura expôs vulnerabilidades não apenas na procura, mas também na capacidade de resposta do ecossistema logístico perante choques simultâneos.

A queda no movimento foi sentida de forma assimétrica, penalizando sobretudo o Porto de Sines, que registou um recuo de 16,6% devido à sua elevada exposição ao tráfego de transhipment e de granéis líquidos energéticos, segmentos particularmente sensíveis à volatilidade internacional. Em contraste, os portos com uma ligação mais direta às cadeias produtivas das suas regiões conseguiram resistir melhor ao choque externo. Aveiro cresceu 4,8%, Lisboa subiu 1,9% e Viana do Castelo registou um aumento de 9,3% no volume de carga, demonstrando que a ancoragem num hinterland robusto funciona como um amortecedor eficaz perante as turbulências das redes globais. No segmento dos contentores, o país movimentou 3,1 milhões de TEU, uma redução de 6% que se explica essencialmente pela quebra acentuada do transhipment, uma vez que o movimento de mercadorias com destino e origem no território nacional manteve um ligeiro sinal positivo.

Para além do cenário internacional, fatores operacionais internos também pesaram na balança logística de 2025. O Porto de Leixões, por exemplo, viu a sua atividade encolher 2,5%, num resultado influenciado por paralisações laborais no final do ano e pelas condicionantes associadas à implementação do novo Sistema Integrado dos Meios de Transporte e das Mercadorias, o SIMTeM. Ao mesmo tempo, o setor enfrenta o desafio da descarbonização, com a progressiva internalização dos custos ambientais através das novas diretivas europeias de emissões e do regulamento FuelEU Maritime, que exigem uma adaptação acelerada das infraestruturas às novas exigências energéticas.

As perspetivas para 2026 mantêm-se marcadas por uma elevada incerteza, mas a AMT sublinha que este será um ano de ajuste estratégico e decisão. A nova Estratégia da UE para os Portos, apresentada este ano, pretende criar uma moldura de ação mais coerente para reforçar a resiliência das cadeias de abastecimento e reduzir as assimetrias de controlo entre os portos europeus. Portugal, pela sua posição geográfica atlântica privilegiada, tem a oportunidade de consolidar o seu papel enquanto infraestrutura crítica e centro competitivo de comércio, desde que consiga aprofundar a modernização tecnológica e a conectividade logística com o espaço europeu.