Quando a digitalização complicou as viagens de comboio pela Europa

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Luís Caetano

Durante décadas, viajar de comboio pela Europa era um exercício simples — e até romântico. Bastava ir a uma bilheteira e, com umas folhas de papel químico, era possível comprar um bilhete que levava o passageiro de Lisboa a Berlim, passando por Madrid e Paris, sem complicações. Hoje, paradoxalmente, essa mesma viagem tornou-se muito mais difícil de planear e reservar, apesar de vivermos na era da digitalização e das plataformas online.

O problema tem nome: fragmentação digital. Cada operador ferroviário europeu — SNCF em França, Renfe em Espanha, Trenitalia em Itália, DB na Alemanha, CP em Portugal — desenvolveu o seu próprio sistema de reservas, tarifas e regras. Estas plataformas, em vez de comunicarem entre si, funcionam como “ilhas digitais”, com bases de dados, algoritmos de preço e interfaces incompatíveis. O resultado é que o passageiro tem de comprar bilhetes separados, em sites diferentes, para completar uma única viagem internacional.

Este cenário representa um retrocesso em termos de interoperabilidade e experiência do utilizador. Nos anos 80 e 90, os bilhetes internacionais eram emitidos através de acordos multilaterais coordenados pela UIC – Union Internationale des Chemins de Fer, que assegurava a aceitação mútua entre companhias nacionais. Hoje, a multiplicação de plataformas digitais privadas e a ausência de normas comuns transformaram um sistema antes coeso num mosaico complexo e pouco intuitivo.

A Comissão Europeia reconhece este paradoxo e prepara uma proposta legislativa para facilitar a compra de bilhetes combinados entre diferentes operadores. A iniciativa integra-se no Plano de Ação para o Transporte Ferroviário de Alta Velocidade, que pretende criar uma verdadeira rede europeia integrada até 2040. O objetivo é simples mas ambicioso: permitir que um passageiro possa planear, reservar e pagar uma viagem completa — mesmo com vários operadores — numa única plataforma.

Mas a tarefa não é apenas técnica: é também comercial e política. Muitos operadores veem os dados sobre preços e lugares como ativos estratégicos e resistem a partilhá-los. Além disso, as diferenças nos modelos de negócio, nas taxas de utilização das infraestruturas e nas regras de compensação por atrasos complicam a integração. É por isso que a Comissão propõe a criação de plataformas abertas e normalizadas, sustentadas em princípios de open data, interoperabilidade e bilhética multimodal.

Se for bem-sucedida, esta mudança poderá devolver ao comboio o papel de modo europeu por excelência — simples, interligado e competitivo com o transporte aéreo de curta distância. A Way2Go acompanha com interesse estas evoluções, pois a integração digital e tarifária será essencial para que a mobilidade ferroviária europeia se torne verdadeiramente sustentável e centrada nas pessoas.