A Comissão Europeia apresentou um novo Plano de Ação para o Transporte Ferroviário de Alta Velocidade, com a ambição de transformar o comboio rápido numa verdadeira alternativa ao transporte aéreo de curta distância. O objetivo é claro: até 2040, reduzir significativamente os tempos de viagem entre as principais cidades europeias, reforçando a conetividade transfronteiriça, o turismo e as economias regionais. O plano visa construir uma rede europeia integrada, onde as fronteiras deixem de ser um obstáculo técnico, e em que as ligações ferroviárias ofereçam velocidades iguais ou superiores a 200 km/h.
Apesar do entusiasmo, o documento da Comissão retoma ideias já antigas — há mais de três décadas que Bruxelas defende a necessidade de interoperabilidade, eliminação de estrangulamentos técnicos nas fronteiras e estratégias de financiamento conjuntas entre Estados-membros e indústria. Este novo plano reafirma esses princípios, procurando finalmente concretizar o que durante anos ficou por fazer: criar uma rede coesa, competitiva e atrativa tanto para operadores como para passageiros.

O comunicado ilustra o potencial impacto desta visão com exemplos concretos: a ligação Berlim–Copenhaga poderá passar de sete para quatro horas; Sófia–Atenas, de quase 14 para seis; e Riga–Vilnius, de mais de quatro para duas horas. A Península Ibérica também surge em destaque — Bruxelas prevê que o percurso Lisboa–Madrid se reduza de nove para apenas três horas, e que a viagem Lisboa–Paris, via Madrid, possa fazer-se em nove horas, tornando o comboio competitivo face ao avião em distâncias intermédias.
A Comissão sublinha ainda a importância de promover a concorrência no setor ferroviário de alta velocidade, apontando os exemplos de Itália e Espanha, onde a abertura do mercado contribuiu para baixar preços e aumentar o número de passageiros. Contudo, o entusiasmo é atenuado pelos resultados financeiros: tanto os operadores (Renfe, Ouigo e Iryo) como o gestor de infraestrutura (Adif Alta Velocidad) registaram prejuízos significativos, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade do modelo num mercado tão exigente e intensivo em capital.
O plano europeu volta também a enfatizar a substituição dos voos de curta distância por viagens de comboio rápido, um objetivo já parcialmente alcançado em rotas como Madrid–Barcelona e Paris–Londres, mas que em França só avançou de forma decisiva graças a uma medida legislativa que proibiu voos com alternativas ferroviárias inferiores a 2h30. Bruxelas acredita que a expansão da alta velocidade trará benefícios adicionais, como o alívio do congestionamento nas linhas convencionais, a libertação de capacidade para comboios noturnos e transporte de mercadorias, e até vantagens estratégicas para a mobilidade militar e a competitividade europeia.
Por fim, a Comissão Europeia reconhece que um dos grandes entraves à integração ferroviária está no acesso à informação e bilhética. Por isso, prepara uma proposta legislativa para facilitar a compra de bilhetes combinados entre diferentes operadores — um desafio que, paradoxalmente, se agravou com a digitalização. Para concretizar todo o plano, Bruxelas estima um investimento colossal de 345 mil milhões de euros até 2040, defendendo que a sua execução exigirá uma forte articulação entre fundos públicos, investimento privado e apoio de instituições financeiras como o Banco Europeu de Investimento.
Fonte: Público