Dignidade humana acima do algoritmo: as diretrizes do Código de Ética Alemão para a condução autónoma

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A Alemanha assumiu um papel pioneiro na regulação da inteligência artificial aplicada à mobilidade ao estabelecer um dos primeiros quadros éticos estruturados para a condução automatizada e conectada. Este código, frequentemente citado em estudos sobre direitos humanos e tecnologia, propõe que a segurança rodoviária seja o objetivo supremo, mas estabelece balizas morais rigorosas para as situações em que o acidente é inevitável. No centro destas diretrizes está a premissa de que a vida humana deve ser sempre prioritária, independentemente de qualquer consideração utilitária ou de minimização de danos materiais.

Um dos pontos mais sensíveis do documento refere-se à proibição absoluta de qualquer forma de discriminação em cenários de escolha trágica. O artigo 9.º do código estipula que os sistemas de condução autónoma não podem ser programados para tomar decisões baseadas em critérios como idade, género, constituição física ou mental, ou estatuto social. Isto significa que, perante um dilema onde o veículo tenha de optar por atingir um grupo de pessoas ou outro, o algoritmo não pode “escolher” salvar os mais jovens em detrimento dos mais idosos, uma visão que colide com algumas tendências utilitaristas observadas em estudos globais como o Moral Machine Experiment.

O legislador alemão reconhece, contudo, as limitações da própria tecnologia e da condição humana. O código admite explicitamente que o comportamento dos sistemas de inteligência artificial não pode ser totalmente padronizado nem programado para ser eticamente inquestionável, uma vez que o comportamento de um condutor humano, mesmo dotado de ética, também é imprevisível em situações extremas. Assim, a dotação de princípios éticos às máquinas será sempre feita de forma abstrata, focando-se na prevenção e na mitigação de riscos.

Além da preservação da integridade física, o código defende a proteção da liberdade individual e o direito à autodeterminação, garantindo que o utilizador mantenha a soberania sobre as suas tomadas de decisão sempre que possível. No plano jurídico, as diretrizes apontam para que a responsabilidade continue a ser apurada com base na existência ou não de culpa nas decisões tomadas pelo sistema, assemelhando-se ao escrutínio aplicado na condução convencional. Este compromisso alemão entre a inovação tecnológica e a salvaguarda dos direitos fundamentais serve hoje de bússola para a criação de um consenso europeu sobre como os robôs devem interagir com a vida humana nas estradas do futuro.

Fonte Principal: A utilização dos veículos autónomos – Dilemas éticos e ponderação dos direitos humanos – Observatório Almedina