O paradoxo da energia em Portugal: eletricidade limpa, mas transportes e indústria no vermelho

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Portugal consolidou-se como um dos líderes mundiais na produção de eletricidade a partir de fontes limpas, atingindo em 2024 a marca recorde de 85% de incorporação renovável, impulsionada pelo crescimento do solar fotovoltaico e pela estabilidade das energias eólica e hídrica. No entanto, a Agência Internacional de Energia (AIE) acaba de lançar um alerta sério no seu mais recente relatório sobre a política energética nacional, sublinhando que este sucesso está confinado ao setor elétrico, enquanto as áreas de utilização final, como os transportes, a indústria e os edifícios, permanecem perigosamente estagnadas. O país entra agora numa fase intermédia e crítica da transição, onde terá de gerir a expansão acelerada do sistema elétrico e, simultaneamente, planear o abandono controlado do sistema antigo dependente de combustíveis fósseis para evitar choques de preços ou a criação de ativos irrecuperáveis.

O setor dos transportes surge como a face mais visível deste desafio, assumindo-se como a maior fonte de emissões de gases com efeito de estufa em Portugal, representando 54% do total em 2024. A forte dependência das importações de petróleo é agravada por um parque automóvel envelhecido e ineficiente. Para inverter esta tendência, a AIE recomenda que o Governo crie apoios específicos à aquisição de veículos elétricos usados, tendo em conta que 80% do mercado nacional assenta em viaturas de segunda mão, além de defender a expansão rápida da rede de carregamento urbano e o reforço da transferência modal para o comboio e transportes públicos.

No domínio industrial, o diagnóstico revela uma década de estagnação, com as emissões praticamente inalteradas apesar das ambições climáticas. A agência insta à criação de estratégias setoriais claras que permitam às empresas e PME descarbonizarem os seus processos e manterem a competitividade global. Esta necessidade de ação estende-se aos edifícios, onde a pobreza energética em Portugal continua muito acima da média europeia. O relatório aponta uma contradição flagrante que trava a eletrificação: o preço da eletricidade para o consumidor final continua a ser superior ao do gás, devido a taxas não relacionadas com a energia ou a rede, o que desincentiva famílias e empresas a abandonarem os fósseis.

O futuro do gás natural é também alvo de escrutínio, com a procura a cair de forma muito mais acentuada do que o previsto, transformando as centrais de ciclo combinado em ativos de reserva. A AIE alerta para o risco de estas centrais saírem do mercado prematuramente e critica os planos de expansão da rede de gás, recomendando que não se realizem novos projetos de gasodutos para evitar custos que recairão sobre os consumidores. Para coordenar esta complexa engrenagem, o apelo final recai sobre a governação, sendo considerada urgente a adoção de um roteiro nacional único e coerente, negociado com os diferentes setores, para eliminar a incerteza que atualmente dispersa os investidores.

Fonte Principal: Nova fase da transição energética exige urgência nos transportes, indústria e edifícios, alerta AIE sobre Portugal – Público.