Medir para Mover: O Novo Roteiro Global para o Sucesso da Mobilidade Ativa

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O impulso político para a mobilidade ativa cresce em todas as regiões do mundo, à medida que os governos reconhecem o andar a pé e de bicicleta como soluções fundamentais para mitigar as alterações climáticas, reduzir a poluição e promover a saúde pública. No entanto, um estudo de 2026 da coligação PATH revela um paradoxo preocupante: embora mais de um terço dos países esteja agora comprometido com ações de mobilidade ativa nas suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs), existe uma ausência quase universal de quadros de avaliação credíveis para medir o impacto real destes investimentos. Esta lacuna de avaliação, já identificada em estudos anteriores, coloca em risco a concretização total das ambições políticas e a manutenção do financiamento a longo prazo.

Para responder a este desafio, a PATH lançou um guia de implementação que propõe um sistema internacional de medição do sucesso, desenhado para ser simples, acessível e escalável. O objetivo é ajudar comunidades, governos e investidores a traduzir as intenções em ações valorizadas e entregues com benefícios mensuráveis. O guia estrutura-se em torno de seis metas fundamentais que definem uma experiência de caminhada e ciclismo segura, fácil e agradável. Estes indicadores incluem a Atividade, medida pelos minutos diários de movimento; a Satisfação, que avalia a perceção qualitativa do utilizador; a Segurança Rodoviária, focada na redução de mortes e feridos; a Segurança Pessoal (Security), relacionada com o medo do crime; o Conforto, que analisa a qualidade da infraestrutura; e a Acessibilidade, que mede a proximidade aos transportes e serviços.

A medição da atividade física é um pilar crítico, dado que a inatividade custa aos sistemas de saúde cerca de 27 mil milhões de dólares por ano globalmente. O guia recomenda o uso de questionários e ferramentas digitais como a Walkability App ou o sistema alemão Motiontag, que permitem recolher dados precisos sobre o tempo despendido a caminhar ou a pedalar, superando os métodos tradicionais que frequentemente subestimam estas deslocações. Na área da segurança, o documento sublinha que quase 22 milhões de pessoas são vítimas de sinistros rodoviários enquanto caminham ou pedalam anualmente, exigindo uma redução de 50% nas fatalidades através de intervenções baseadas em dados hospitalares e policiais.

A dimensão social e de género é igualmente central na metodologia proposta. O estudo destaca que 73% dos adultos no mundo sentem-se seguros a caminhar sozinhos à noite, mas existe um hiato de género persistente de 11 pontos percentuais. Ferramentas como a Safetipin, utilizada na Índia, permitem auditar a iluminação e a visibilidade das ruas, tendo já ajudado a reduzir em 63% os pontos escuros em Deli. No que toca ao conforto, o guia adota o padrão do Programa Internacional de Avaliação de Estradas (IRAP), estipulando que 75% das viagens devem ocorrer em vias com classificação de três estrelas ou superior, garantindo passeios adequados, travessias seguras e velocidades de tráfego controladas.

A integração destes dados em sistemas de avaliação financeira (appraisal systems) é apontada como a via para assegurar que as decisões de investimento sejam transparentes e baseadas em evidências. O exemplo do Reino Unido, com o seu Active Mode Appraisal Toolkit (AMAT), demonstra como é possível quantificar benefícios que vão desde a redução do absentismo laboral até à melhoria da qualidade do ar, permitindo calcular o valor real do dinheiro investido nestas infraestruturas. Ao adotar este roteiro, a PATH — que agrega mais de 500 organizações — espera que a mobilidade ativa deixe de ser vista como uma promessa acessória para se tornar o motor central de cidades vibrantes, inclusivas e resilientes.