A narrativa do progresso no pós-guerra foi escrita com o brilho do aço e a promessa de liberdade individual conferida pelo automóvel particular. Para materializar esta visão, governos ocidentais, com particular zelo nos Estados Unidos, lançaram-se num dos projetos de obras públicas mais destrutivos da história: a construção de vastos sistemas de autoestradas urbanas. O que foi vendido como um passaporte para a modernidade revelou-se, afinal, uma tragédia de planeamento que priorizou a circulação de máquinas pesadas em detrimento da prosperidade e saúde das pessoas que habitavam os centros das cidades.
O impacto desta expansão de asfalto não foi distribuído de forma aleatória. Sob o pretexto da “renovação urbana”, os planeadores desenharam estas gigantescas fitas de betão diretamente através de bairros vibrantes da classe trabalhadora e de minorias, destruindo lares, comércio local e capital social. Este processo funcionou como um mecanismo de transferência de riqueza, subsidiando as deslocações suburbanas das classes média e alta enquanto pavimentava o sustento das comunidades mais vulneráveis. O resultado foi a fragmentação de bairros outrora coesos, substituídos por viadutos que trouxeram apenas ruído, poluição e barreiras físicas intransponíveis.
A introdução destas infraestruturas alterou radicalmente a geometria urbana, pondo fim à “morte da proximidade”. Antes do domínio do carro, as cidades eram construídas à escala humana, com habitação, trabalho e escolas entrelaçados, permitindo que a mobilidade ativa fosse a forma mais lógica de navegação diária. As autoestradas destruíram este ecossistema, incentivando a expansão urbana descontrolada e tornando as distâncias demasiado vastas para serem percorridas a pé ou de bicicleta. Passámos da vibrante “cidade de 15 minutos” para uma dependência forçada de ativos depreciáveis de duas toneladas apenas para participar na vida social.
Os custos ambientais e de saúde pública desta herança de betão são hoje considerados avassaladores. As autoestradas injetam milhões de toneladas de gases com efeito de estufa e partículas nocivas diretamente nos ambientes residenciais, provocando taxas elevadas de doenças respiratórias e cardiovasculares nas populações adjacentes. Além disso, a impermeabilização do solo e a imensidão de asfalto criam ilhas de calor urbanas e destroem habitats naturais. No entanto, esta crise é uma escolha política e não uma lei da física, o que significa que pode ser revertida.
O caminho para a recuperação das cidades passa pela reclamação radical do espaço público. Projetos de remoção de autoestradas em todo o mundo têm demonstrado que a substituição de vias rápidas por parques, habitação e corredores de mobilidade ativa gera revitalização económica e um aumento profundo no orgulho cívico. Neste cenário, a bicicleta elétrica surge como um nivelador tecnológico, capaz de achatar colinas, encurtar trajetos e democratizar as deslocações sustentáveis para todas as idades e condições físicas. Reconstruir a cidade para que seja um lugar para viver, e não apenas para atravessar, é o desafio urgente para as próximas décadas.
Fonte Principal: Finch, B. (2025). How highways destroyed America: The cost of car cities. WheelyTyred.