A gestão das necessidades energéticas mundiais atravessa uma fase de transição crítica, onde os Pequenos Reatores Modulares, conhecidos pela sigla inglesa SMR (Small Modular Reactors), emergem como uma tecnologia de rutura frente às grandes centrais nucleares convencionais. Estes dispositivos representam a próxima geração da tecnologia nuclear de fissão, distinguindo-se essencialmente pelo seu tamanho reduzido e pela capacidade de serem fabricados em série em ambiente industrial controlado, sendo posteriormente transportados em módulos prontos a montar no local de instalação. Com uma potência elétrica tipicamente inferior a 300 MW por unidade — cerca de um terço da capacidade dos reatores tradicionais — os SMR foram concebidos para serem fisicamente menores e mais simples, aproveitando leis físicas naturais como a gravidade e a convecção para sistemas de segurança passivos que não requerem intervenção humana em caso de falha.
A versatilidade destas unidades permite que sirvam múltiplos propósitos que vão muito além da simples geração de eletricidade para a rede pública. Devido à sua natureza compacta, os SMR são ideais para alimentar áreas remotas ou comunidades isoladas, substituindo geradores a diesel dispendiosos e poluentes. Além disso, operam a temperaturas elevadas que permitem a cogeração de calor para processos industriais, como a dessalinização de água e a produção de vapor para setores como a siderurgia e a mineração. Estes reatores funcionam ainda como um pilar fundamental para a transição energética, complementando a variabilidade das fontes renováveis, como a solar e a eólica, através de uma geração flexível e despachável que garante a estabilidade do sistema.
No setor da mobilidade e dos transportes, a relevância dos SMR é profunda, particularmente no domínio marítimo. A indústria nuclear é apontada como um motor de descarbonização para navios mercantes de grande porte, prevendo-se a instalação de microrreatores a bordo que permitiriam uma operação inerentemente neutra em carbono com intervalos de reabastecimento de combustível que podem coincidir com a própria vida útil da embarcação. Para além da propulsão direta, estes reatores assumem o papel de “fábricas de combustível” terrestres ou portuárias, fornecendo a energia térmica e elétrica necessária para a produção em larga escala de hidrogénio verde, amónia e metanol sintético, vitais para descarbonizar frotas de transporte pesado e aviação.
Contudo, esta revolução tecnológica não está isenta de riscos e fragilidades que exigem uma supervisão rigorosa. A implementação de SMR em escala global enfrenta obstáculos regulatórios significativos, uma vez que os atuais regimes de licenciamento foram desenhados para reatores de grande escala e carecem de harmonização internacional para lidar com a diversidade de novos designs. A gestão de resíduos radioativos continua a ser uma questão crítica de segurança e aceitação pública, acompanhada por preocupações crescentes com a segurança cibernética em sistemas cada vez mais automatizados e o risco de proliferação nuclear devido à dispersão geográfica destas unidades. Do ponto de vista económico, os custos elevados dos primeiros modelos da série (First-of-a-Kind) e a ausência de quadros de seguros e responsabilidade civil claros para navios nucleares representam barreiras que podem atrasar a viabilidade comercial desta tecnologia.